Maputo by night

É já noite no Índico. A temperatura desceu um pouco. Estou sentada no Jacarandá, num jantar leve, bem-disposto. As palavras são como a castanha de caju, é só começar. Tocam levemente a política e os interesses portugueses em Moçambique, as desavenças no PS e daí resvalam para magnificência da vida selvagem. A política não dista muito desta última. Digamos assim: tanto numa como noutra cada gazela tem o seu leão. A conversa acaba, se saber bem como, na questão de género. O jpt, antropólogo de verve elegante e ferina, diz a dada a altura “que o trabalho de campo o fez tornar-se um feminista”. Acabamos a desfiar a cartografia das angústias e dos nossos demónios.

Basta passar os olhos pela imprensa dos últimos dias e indignamo-nos com a “Catarina”, adolescente portuguesa (abusada duplamente pelos perpetradores e pelos que se tornaram silenciosamente cúmplices), invade-nos nos um frio glaciar ao ler que uma adolescente malaia, de 12 anos foi violada por mais de trinta homens, ou que duas meninas na Índia foram assassinadas depois do suplício de uma violação múltipla. A história repete-se, dia após dia, após dia,com outras personagens, numa interminável e cruel espiral.

Debruçar-se sobre na varanda do abuso e da violência sobre a mulher é aventurar-se a descobrir quanto sofrimento o coração humano consegue afinal suportar, quando e se consegue. Este mundo misógino onde a mulher é um mero objecto, uma vagina disponível para a cópula quando um macho quer, não nos devia indignar e fazer passar à notícia seguinte, mas enfurecer. Estas meninas, estas mulheres precisam que se fale delas. As palavras que as nomeiam, as histórias que as contam, modelam-lhe a verdadeira existência. Porque o destino de ser mulher não é esquecer-se de ser. A contemporaneidade exterior, conquistada via Facebook ou Twitter teima em demorar a chegar às mentalidades. Até lá o feminismo, “essa maçada”, continua actual.

PS – Num curso que fiz no Bundeswehr para me preparar para zonas de guerra ou conflito coloquei ao major responsável pelo mesmo a questão: “o que fazer no caso uma violação ?”. A resposta ficou-me gravada a ferro : “fique quieta e aproveite”.

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2 thoughts on “Maputo by night

  1. Que horrores, Helena.
    A mim ficou gravada uma frase do comediógrafo Terentius, que li quando apenas saía da adolescência: “Não há nada mais triste do que ser mulher”.
    Não me lembro de qual era a peça, mas posso procurar.
    Pareceu-me ouvir ontem que o recente assassínio “de honra” no Paquistão levantou fortes protestos mesmo dos chefes religiosos muçulmanos locais; se é verdade, terão finalmente acordado? Poderemos ter esperança?

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