“Pelo Meu Relógio São Horas de Matar” é o título do novo álbum da banda rock alternativa portuguesa Mão Morta. No vídeoclip de” Horas de Matar” pode ver-se o vocalista Adolfo Luxúria Canibal de revólver na mão, disparando sobre bancários, padres, políticos. Pessoas que deixam de ser pessoas e são esvaziadas da sua humanidade, logo descartáveis. “Não há aparato repressivo que sustenha a ira das massas embriagadas pelo desespero”, brada o cantor entre disparos.
A exaltação deste vídeo nas redes sociais e nos comentários de alguns jornais revela um discurso, às vezes explicito, às vezes sublinhar que tolera a morte de uma categoria de portugueses ou que considera que o seu assassinato seria justificável e justificado. Um discurso que me perturba e desnuda o actual momento português.
“ O vídeoclip é uma ficção, claro. Sobre isso não existem quaisquer dúvidas. Não creio sequer que os Mão Morta tenham ilusões de intervenção no real. A sua linguagem é totalmente artística”, escreve no Público , Vitor Belanciano. Não posso estar mais em desacordo. Na génese da RAF, Fracção do Exército Vermelho, estiveram as análises sociais de Ulrike Meinhof na revista Konret. Das colunas de papel à luta armada foi um pequeno passo. Talvez por ter acompanhado de perto o terrorismo da RAF seja mais sensível a estes detonadores. Contudo estamos numa época, parafraseando Eliane Brum , em que “já não nos subjetivamos, tudo é literal. Nos mínimos actos do cotidiano nos falta a palavra que pode mediar a acção, interromper o gesto de violência antes que se complete”. E isso desassossega-me.
Posso até compreender as razões da revolta de alguns (muitos), posso compreender a sensação de cerco e o desespero. Porém, não tenhamos medo das palavras, o terrorismo – é disto que se trata em “Horas de Matar” – não é um instrumento de luta política, senão algo ignóbil e o ponto extremo da cobardia humana. Pretender o contrário é aceitar que é o terror, a bala disparada, que dita a lei, é aceitar a banalidade da morte como catarse.
Dos “seis contra 60 milhões”, como formulou Henrich Böll, sobraram um rasto de sangue, dezenas de mortos, e a constatação incómoda, para boa parte da esquerda alemã, que a RAF estava errada e nada legitima a violência contra os “inimigos de classe”, sejam eles banqueiros, políticos ou padres. Pelo menos no mundo civilizado. O nosso.