Maputo reloaded

Há lugares que já não sabemos se vêm da literatura ou de uma memória anterior. Recomponhamos a história.

Não conheço ninguém que tenha ido a Maputo e tenha regressado de lá desiludido. Quero falar-vos de um recanto, onde o tempo parece deter-se e reina ainda esse bem tão difícil de encontrar na fervilhante Maputo: o silêncio. Entro nele com a mesma surpresa que Alice ao atravessar o espelho. Ali, bem pertinho da Catedral, na esquina da furiosa Avenida Samora Machel com a Rua da Rádio fica o Centro Cultural Franco-Moçambicano, que já foi hotel, e hoje é dos lugares mais aprazíveis para se almoçar na cidade.

Lá, reconfortada pelo almoço, enche-me uma nostalgia profunda. Olho para o iPad e vejo uma fotografia, algo desfocada, a preto e branco, de 14 de Maio de 1967. Em poucos toques com a ponta dos dedos uma viagem no tempo, diria quase no espaço. Estrada às curvas transmontana, terra vermelha guineense.

Há quase meio século, à distância de dois continentes, dois jovens casavam por procuração. O meu pai na Guiné, a minha mãe em Vila-Real. Fecho os olhos e desejo o impossível: conhecer os meus pais enquanto jovens, como é injusto que os filhos não saibam que os país nem sempre tiveram aquela ruga de preocupação, a geografia do tempo desenhada no rosto ou os cabelos encanecidos. O casamento dos meus pais foi um poema de Mia Couto, “ficávamos nos olhos /vivendo de um só /amando de uma só vida”, atravessou a guerra, o retorno, o desgaste do tempo. Raro embondeiro africano.

Perderam-se as cartas de amor e os aerogramas, queimados por mão revolucionária e pouco romântica na correria da ponte aérea. Desses jovens que os meus pais foram restaram uma mão cheia de fotografias mal-tratadas com a patina do tempo. E um amor. De granito. Até que a morte os separou.

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2 thoughts on “Maputo reloaded

  1. Obrigada Helena, pela partilha. Ao ler este texto fiquei com uma sensação boa para começar o dia. Li, há pouco tempo, um artigo que referia que os grandes romances literários não terão lugar nos interesses das futuras gerações. Segundo esses investigadores, a complexidade da escrita não se coaduna com o ritmo exigente das sociedades modernas. Ao ler o seu post repensei nesse artigo. E pensei que na verdade o que me parece ter mudado são as formas de amor/amar!

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  2. Penso que as formas de amar mudaram, se tornaram mais egoístas e superficiais, escondendo-se por detrás da “liberdade” a falta de capacidade de entrega ou o medo de ser magoado. Acredito também que o ritmo em que se vive e o consumo de informação (cada vez mais digital) alteram quer a leitura quer a interpretação do real.

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