Sob céus andinos

1. Devo à espanhola Icíar Bollaín (realizadora de “Tambíen la lluvia”, que venceu o prémio do público na Berlinale em 2011) ter visitado Cochabamba mesmo antes de apanhar o meu voo de Frankfurt.
No ano 2000 o Banco Mundial forçou o presidente boliviano, Hugo Banzer, a quem alguns chamam chamam ex-ditador, como se um ditador alguma vez deixasse de o ser, a privatizar o abastecimento de água, cedendo a Aguas de Tunari à norte-americana Bechtel. A esta medida seguiu-se um aumento do preço da água superior a cem por cento, aos cochabambinos era proibido até recolher a a água da chuva.
De toda a Bolívia chegaram a Cochabamba milhares de descontentes, os protestos populares levaram à imposição da lei marcial. Camponeses, trabalhadores fabris, cocaleros (plantadores de coca) sitiaram a cidade durante meses numa verdadeira “guerra da (pela)água”. Os cocaleros do altiplano, gritando “¡el agua es nuestra carajo!”, eram encabeçados por um indígena, então muito pouco conhecido, chamado Evo Morales.
Após meses de protesto, com mortos e feridos, David venceria Golias, o governo recuaria, o abastecimento de água manter-se-ia público. O coração político da Bolívia bate em Cochabamba.

2. Colo-me à sombra, porque nas primeiras horas da manhã já está um solzaço. Mil duzentos e cinquenta degraus separam o final da Avenida das Heroínas do Cristo de La Concordia, 44 centímetros mais alto do que o Cristo Redentor no Rio. O coração é o músculo mais forte.Dou graças.
Uma cholita, mulher indígena que usa o trajo tradicional e longas tranças negras, pede-me que lhe tire uma fotografia com o namorado. Foco-lhe as expressões algo atrapalhadas, sem jeito como diriam os brasileiros, de recém-apaixonados. Miúdos vendem gelatina em copos de plástico. O trabalho infantil é demasiado comum em Cochabamba. ” ¿Cómo se llama el alma? “, perguntam no cemitério meninos que por uns centavos de boliviano rezam pai-nossos e avé-Marías, em castelhano ou quíchua. Há crianças “rezadeiras”, “regadeiras” de flores, crianças que limpam as lápides e se for preciso pintam campas de cal fresca. Mais de uma centena de crianças, organizadas numa espécie de sindicato, trabalham no cemitério, para pagar os cadernos escolares, a chicha (bebida feita à base de milho fermentado) dos pais ou simplesmente para esquecer a tristeza. Paradoxo? Não, há tristezas mais profundas em Cochabamba que a do cemiterio.

O céu está de papel de seda azulão. Brancas nuvens verticais dão drama ao céu de inverno. Como se fosse necessário. O olhar detém-se no arrogante Cerro Tunari – que com os seus 5035 metros é o pico mais alto da Bolívia Central – e desce até à cidade. A sul,casario tem-te-não-caias, estragando o cartão-postal e pondo as coisas em perspectiva. A Bolívia continua a ser o país mais pobre da América Latina apesar de viver um dos momentos mais interessantes da sua história contemporânea. O contraste não pode ser maior com os casarões coloniais que ainda sobram e os prédios espelhados da zona norte.

Desço até ao centro histórico. Casarões coloniais, quase todos violados por graffitis. Paro no Convento de Santa Teresa. Hoje são poucas as monjas carmelitas que o habitam e o rigor entre aquelas paredes suavizou-se. No Convento, fundado no século XVIII, aprisionavam-se as filhas segundas das famílias endinheiradas, cujo dote (actualmente equivalente a mais de cem mil euros) lhe garantia o estatuto de Velo Negro, uma cela com uma janela e amenidade de serem servidas pelos Velos Brancos. A única, numa vida confinada ao isolamento total do mundo exterior. Os Velos Brancos, de dote menor, eram servidas pelas monjas Sin Velo, jovens pobres cujo envio para o convento significava um encargo a menos para as famílias.
Passeio sozinha pelo interior, detenho-me em frente à janela, com grades e dupla cortina negra, atrás da qual as monjas sussurravam durante minutos breves com a família, sempre na presença de outra religiosa, penso que Deus não cabe no enquadramento, apesar da impressionante arquitectura, ou eu não soube enquadrar.
Em 1960 o Vaticano determinou que as condições de vida em Santa Teresa eram desumanas e ordenou o fim do isolamento. Dou graças.

3. O Palácio Portales é a própria ambição: mármores de Carrara, quadros de Velasquez, uma reprodução do teto da Capela Sistina, mobiliário Luís XV, salões sumptuosos e decadentes construídos para Simon Patiño,que nunca o chegaria a habitar.
Os passos ressoam no xadrez de mármore. Entrar no palácio, cujo arco do corredor principal tem escrito “amor pelo trabalho, respeito pela lei”, é esmagador. Ainda há pouco estava nas frenéticas favelas de Cochabamba e de repente paredes com tecido de damasco, candelabros, espelhos, brilhos, tapeçarias, tectos hipnotizantes, pinturas, madeiras raras. Tanta beleza extraída da violência e da antecâmaras do inferno que eram (que são) as minas bolivianas.
Nenhum outro edifício em Cochabamba lhe rouba o protagonismo, pela beleza, pela história – a vida de Simon Patiño, mestiço de origem basca que se tornaria num magnata do estanho, é o sonho americano, em versão boliviana – mas também porque lá dentro acontecem coisas. Hoje o palácio alberga uma galeria de arte, uma biblioteca aberta ao público e é palco de concertos e outras actividades culturais.

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