Aprendendo a praguejar

Situação clássica. Você tem que viajar de emergência – como o destino lhe trocou as voltas não será para Guatemala (o tal país do post anterior), mas para Vila-Real- e há uma greve. O mais difícil das viagens nestes dias não é o Mar ou o Ar e as suas fúrias e o Desconhecido e seus Adamastores , o mais difícil é conseguir sair da Alemanha. Com os aeroportos germânicos em apoplexia,graças à greve dos pilotos da Lufthansa, a alternativa mais rápida e económica para chegar ao Porto é ir até Amsterdão. Dito e feito. Comprada a passagem aérea na Transavia (a companha aérea com os assentos mais bonitos do mundo, para quem não conhece: são verde-Sporting )resta adquirir o bilhete para o ICE (comboio de alta velocidade). Sublinhe-se aqui a palavra velocidade determinou a escolha. Graças às maravilhas da tecnologia em poucos minutos o bilhete estava gravado no iPhone, poupando algumas árvores e prontinho para ser lido pelos scans das Valquirias da Deutsche Bahn, cuja simpatia é inversamente proporcional à altura. Mas não nos adiantemos.
Cheguei à estação central de Bona com a vaga esperança que fosse um daqueles raros dias do ano em que os comboios alemães não se atrasam. Estava tão enganada como as previsões de alguns economistas em relação à economia portuguesa.

Já a bordo, a Valquiria de serviço pede o bilhete. Estendo-lhe o telemóvel com o código para passar no scan. “O bilhete tem de ser impresso”. “Não, este é um bilhete electrónico não tem de ser impresso”. “Tem de pagar outra passagem porque esta não está impressa”. Kafka calling. “Eu paguei esta passagem e não pago mais nenhuma, por favor esclareça isso com a Deutsche Bahn”. Passados uns minutos, sem Wagner como música de fundo, regressa a Valquiria como se nada tivesse acontecido”. Pode viajar com essa passagem (surprise, surprise), mas para a próxima imprima o bilhete”. Inspira, expira.

Ainda antes de chegar à fronteira com a Holanda o comboio imobiliza-se. “Minhas senhoras e meus senhores devido a um suicídio a linha está interrompida. Podem sair do comboio e fumar um cigarro”. Passada uma hora pouco mais ou menos os passageiros regressam ao ICE. “Minhas senhoras e meus senhores se há um médico a bordo, homem ou mulher não interessa, por favor dirija-se à carruagem 25”. Ainda este anúncio, que para ser benévola classificarei como “estranho”, está a decorrer entram vários polícias com cara de poucos amigos na carruagem. “Passaporte por favor”. “É portuguesa?” (onde foi buscar essa ideia?). Respondo com um sorriso semi-irónico , “sim”. “Boa sorte para o Mundial”, replica, “vão precisar”. Inspira, expira.

” Senhores passageiros pedimos as nossas desculpas, mas a linha continua interrompida. Podem abandonar o comboio e fumar um cigarro”.You have got to be kidding.

Chego finalmente a Utrecht e tenho 4 minutos bem medidos para apanhar o comboio que me levará ao aeroporto de Schipol. Estão a ver um comboio amarelinho a deslizar nos carris? Era o meu.

Moral da história: é mais rápido chegar a Cochabamba ou a Maputo do que a Vila-Real.

PS- Agora à distância de uns dias e com a minha mãe a recuperar devagarinho do AVC até consigo achar alguma piada às peripécias à viagem.

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3 thoughts on “Aprendendo a praguejar

  1. As melhoras da mãe, Helena. Foi épica, essa viagem, e na altura não deve ter tido graça nenhuma. Não teve curiosidade jornalística em saber mais sobre o suicídio?

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