Falemos do tempo

Qual é o maior mistério da vida do homem? Não é saber quais os limites do Universo, ou porque perde mais horas a suspirar pelo 918 Spyder do que pela Bündchen, ou se há vida depois da morte, ou mesmo se a mulher finge o orgasmo. O maior mistério da vida do homem é saber o que pensam as mulheres. Meus caros leitores esse mistério, que contém em si matéria suficiente para um romance, vários poemas ou para entreter o sultão das mil e uma noites, é insolúvel (e é isso que nos dá um certo encanto, ou não?). E qual é o maior mistério da vida da mulher? Saber onde se esconde o tempo, esse Houdini que faz desaparecer as horas na sua cartola. Pfffutt.

Não foi nada disto que eu planeei escrever ou queria contar, contudo o saldo dos dias tem sido pesado e não me permite mais do que sobrevoar as coisas. Por isso falemos da hamletiana questão: ter ou não ter tempo. E não é uma questão de ter ou não ter mais rugas ou ver a gravidade surtir o seu efeito, mas o desejo (impossível ?) de construir a vida por um processo de redução.

Pela manhã, quando levo as miúdas para escola escolhemos uma música que é tocada em volume (demasiado, para mim, pouco para elas) alto. Às vezes rimos até ficar com dores de barriga e eu recito para mim um poema do Drummond :”vamos não chores/a infância está perdida/a mocidade está perdida/ mas a vida não se perdeu”. Solto um eufemistico até logo.

Com a idade perdi o privilégio doce de não fazer nada, de ficar horas no embalo da rede na frescura da varanda a ler ou de perder horas com ingénuas vaidades doceiras recriadas de velhas receitas escritas em letra redonda. Agora aproveito os semáforos vermelhos para ler as notícias no iPad e passar os olhos pelo Facebook (há provas estatísticas que o humor matinal melhora muito após esta viagem virtual e que se evitam desastres sociais como o esquecer-se do aniversário de um amigo ou fugaz conhecido). “People are crazy and times are strange”, cantava o Bob Dylan. Actualíssimo.

No gabinete converso longamente com o meu chefe. “Só mais uma coisinha, precisava que viajasses para (um país a 16 horas de vôo)”. “E isso seria quando”, pergunto. “Amanhã”. Inspira, expira. Nada me dá mais prazer do que descobrir um grande humorista.

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2 thoughts on “Falemos do tempo

  1. Suponho que já terá voado para esse tal país. Desejo-lhe uma óptima vigem. E enquanto puder fazer isso, está sim, no controlo do seu tempo, o que é maravilhoso. Aproveite bem esse privilégio. Ou esse dom, acredito mais que seja isso. E continue a escrever tão bem e tão na “mouche” (temas).

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