Prefácio para a Copa

Copa do Mundo 1950

Como o personagem do poema de T. S. Eliot que media sua vida em colheres de café, os brasileiros podem medir a sua vida em Copas do Mundo. Meio a sério, meio a brincar dizem que o futebol foi inventado pelos brasileiros na Pré-História quando um pré-brasileiro fez um passe com o crânio de um inimigo. Bem, foram eles que inventaram a “pelada de rua” em que qualquer coisa vagamente esférica faz as vezes de bola, as balizas se erguem com os que estiver à mão, latas, tijolos ou até os irmãos mais novos, mesmo sob o voto de protesto dos mesmos, e a diversão dura até “mamãe” chamar, os vizinhos chamarem a polícia ou anoitecer.

Se é difícil encontrar um norte-americano que não tenha uma obsessão pelo seu psicanalista – se a Bovary ou a Karenina fossem americanas, antes do adultério passariam pelo divã ou do divã para a cama – é ainda mais complicado encontrar um brasileiro que não seja fascinado pelo futebol. Dessa paixão nasceram livros inesquecíveis. Um deles é “À sombra das chuteiras imortais”, de Nelson Rodrigues, uma colectânea de crónicas sobre futebol.  O facto de algumas crónicas terem sido escritas na época do “brasileiro vira-lata” – o adepto de futebol destroçado pela derrota contra o Uruguai no Maracanã na “Copa” de 1950 – não lhe retira nem actualidade, nem beleza. O tempo é uma convenção que não existe para as mulheres apetecíveis [e os seus congéneres do sexo oposto], nem para as crónicas de Nelson Rodrigues.

Nele o que se passa em campo é apenas um pretexto para espreitar pela fechadura, como um menino, e pelo buraco contemplar os anjos e os demónios da sua devoção e com eles tudo o que de mais humano existe: o medo, a solidão, o heroísmo, a grandeza, a obsessão, o amor e o sexo [sabem qual é a diferença entre sexo futebol? Quase nenhuma com duas excepções, futebol não se pode usar as mãos e o sexo, felizmente, não é organizado pela FIFA. O resto é tudo igual, ide ler o Veríssimo].

No Maracanã, um paraíso com escadas demais, mas um paraíso, Nelson Rodrigues, que era míope, tinha sempre alguém ao lado para soprar os lances que a vista não alcançava. E isso não o impediu de (d)escrever relatos de jogos magníficos.

“Vamos enfrentar a Espanha. Diante de nós abre-se todo um horizonte de chifres, ensanguentado de chifres.Vejam vocês o que é a chance histórica. A distensão de Pelé foi para Amarildo como a Revolução Francesa para Napoleão. E eu imagino como andará o craque alvinegro no Chile. Antes da distensão de Pelé, que fazia ele? Como o pescador de O velho e o mar, sonhava com leões. Mas o adversário é a Espanha. E, então, Amarildo sonha com chifres e sangue. Ele próprio, como no soneto célebre, é um negro touro “saudoso de feridas”.

Quer melhor prefácio do que “À sombra das chuteiras imortais”, e o que se pode ler nas entrelinhas desse jogo mágico, para a Copa? Vá por mim, não há.

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One thought on “Prefácio para a Copa

  1. O futebol está no sangue dos brasileiros e acredito que desde sempre. Apesar de toda a polémica que se tem gerado no Brasil em torno deste Copa, não tenho dúvidas que lá para Junho não vai faltar emoção e muita folia! Afinal estamos a falar do Brasil 🙂

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