Fragmentos de Buenos Aires

1.Conta o livreiro Arturo Pena Lillo, em “Los Encantadores de Serpientes”, que nos primeiros anos do século passado, num alfarrabista em Buenos Aires alguém descobriu entre os livros empoeirados um grosso volume. Depois de negociar com o livreiro o comprador paga oitenta pesos pelo livro e atravessa sorridente a soleira da porta. Mais tarde aquele livro amarelecido de Lavalle era um exemplar da Bíblia de Gutenberg  e foi vendido ao Museu Britânico por dez mil libras.Esta é uma das muitas histórias de livros de Buenos Aires, cidade onde ficção e realidade se confundem, como nos livros de Borges. Foi num pequeno alfarrabista da cidade  que Umberto Eco descobriu, em 1970,  um livrinho com abundantes citações do monge beneditino alemão Adso de Melk, o narrador de “ O Nome da Rosa”.

Bebo  um café  no El Atheneo, magnífico cine-teatro convertido  em livraria. Buenos é assim:  cafés com livraria, livrarias com café. Suspiro ( e um estrago considerável em pesos).

2. Se tivesse que descrever Buenos Aires associando-a a cada um dos  cinco sentidos escolhia os jacandarás em flor, prepotentes de azul-lilás, o tango de Gardel e Piazzolla  em Palermo Viejo e nas placitas com a sua coreografia de corpos suados – ou não fosse, como dizia Borges, “o tango uma espécie de simulacro do coito”, o cheiro do Asado porteño de domingo, poema feito de carne, e o sabor das medias lunas do Café Tortoni, que é um pouco como a brasileira de Lisboa. Nunca vi uma cidade na América Latina, talvez com a excepção de Olinda, que me lembre tanto Lisboa.  É como que se nunca tivesse partido.

[ outro dos sons que a associo a Buenos Aires, má sina a minha, é a gritaria histriónica das adolescentes em frente ao hotel onde estava hospedado o Justin Bieber.Ohmmm]

3.Em Buenos Aires o passado está em todo lado. Crimes por esclarecer da ditadura, nazis,  desaparecidos, mães de Maio, Perón, Evita. No cemitério da Recoleta, “retórica de sombra de mármore” – um dos lugares de Buenos Aires onde o preço por metro quadrado é mais elevado – há peregrinações para ver o túmulo de Evita, mesmo com o sol a queimar a pele. Don’t cry for me Argentina.  Talvez uma parte do afecto seja mito, talvez toda a memória também o seja.

4.Tomei estas notas  incompletas de Buenos Aires em Novembro, tinham ficado esquecidas no caderninho à espera de tempo para as depurar. Mas como o tempo fugit e fugit a uma velocidade incrível partilho-as assim como fragmentos nómadas, sem mapa , com clichés, “sin aventuras” mas com assombro.

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