Alemanha,Rússia: uma história de amor e ódio

1.Ao longo da sua história a Rússia sempre foi um Sonderfall. Fazendo fronteira com três esferas culturais diferentes- a Ásia, o mundo muçulmano e a Europa- e abrangendo populações de cada uma destas esferas nunca chegou a ser um Estado nacional no sentido europeu do termo. Como salienta Henry Kissinger “dividida entre uma insegurança obsessiva [as suas fronteiras foram-se dilatando ou encolhendo à medida que conquistava ou perdia territórios ] e um zelo proselítico ” a Rússia desempenhou sempre um papel no equilíbrio europeu, mas nunca fez emocionalmente parte dele.

Quem se interesse por literatura russa encontra nela uma uma explicação para o impulso da Rússia para o exterior: mais de um sentimento de insegurança este impulso deve a uma vocação messiânica. Durante séculos a Rússia tem sido uma causa à procura de uma oportunidade, na Crimeia a Europa dividida – alguma vez a União Europeia terá uma só voz? – e desastrada forneceu-lhe o pretexto.

A História não é um manual de instruções que possa ser aplicado mecanicamente, ela ensina por analogia, dando pistas para compreender as consequências prováveis de situações semelhantes. Porém é preciso determinar a cada momento histórico se as circunstâncias são comparáveis.

2. Correndo o risco de me repetir acredito que não há como os momentos de crise para despertar rancores e espíritos medíocres. O preconceito anti-germânico anda por aí (outra vez) desembestado porque na cabecinha de alguns a factura de Hitler e do nacional-socialismo continua por pagar.

Como se a chanceler Angela Merkel fosse responsável pelos desvarios de Putin – ela que, como poucos líderes europeus, o conhece bem e conhece bem a Rússia – ou pela decisão irreflectida de alguns líderes de tentar encostar ao presidente russo à parede e posteriormente cairem no rículo de sanções sem dentes.

Compreendendo que a política externa de Putin é amálgama de medo exterior, de instintiva sensação de insegurança e antiquado expansionismo czarista (ainda que até agora prosseguido por via da pressão económica) Angela Merkel fiel ao seu estilo low-profile foi procurando manter a Rússia no tabuleiro europeu, vetando a entrada da Geórgia e da Ucrânia na NATO, procurando uma via diplomática para a crise na Ucrânia ou evitando a expulsão da Rússia do G8. Em simultâneo, como pouco países europeus a Alemanha tem trabalhado para fortalecer a democracia na Ucrânia através por exemplo das suas fundações políticas, nomeadamente a Konrad Adenauer que desde 2010 apoia o partido UDAR de Vitali Klitschko.

Os mais cínicos invocaram os interesses económicos como justificação para a “contenção” de Berlim em relação a Moscovo. Se é verdade que a Alemanha depende do gás russo, embora numa percentagem que as grandes empresas alemãs tem negócios milionários na Rússia (há cerca de seis mil empresas germânicas activas na Rússia) e que 300 mil empregos dependem directamente das relações bilaterais, também é um facto que a Rússia depende da Alemanha como mercado exportador e como parceiro estratégico vital. Isto explica que após ser conhecido o resultado do referendo na Crimeia as palavras mais duras tentam sido as proferidas por Angela Merkel, um luxo que só ela se pode permitir.

3. Nenhum outro país europeu compreende tão bem os receios dos países do leste europeu, como a Polónia, ou da própria Ucrânia. Faça-se um flashback até à década de 60 quando as democracias ocidentais advogavam com palavras a ideia da unidade alemã, mas nada fizeram para a concretizar. Nenhuma cidade europeia teve tanques de guerra de ambos os blocos estacionados frente a frente. Se algo que aterroriza a Alemanha é uma reedição da Guerra Fria. Em 1996, na sua obra magistral “Diplomacia”, Kissinger alertava “não é do interesse de nenhum país que a Alemanha e a Rússia se fixem uma na outra , quer como parceiro principal, quer como adversário principal. Se se tornarem demasiado próximas, suscitarão o medo do seu condomínio; se brigarem envolverão a Europa numa escalada de crises”.

A Europa como a conhecemos acabou no domingo e é difícil fazer previsões, arrisco no entanto afirmar que só a Alemanha, com a sua estratégia de paciente acumulação de êxitos parciais e devido aos laços económicos e históricos, está consciente dos limites à confrontação à Rússia e simultaneamente será o único país com a capacidade de fazer escolhas. A história não perdoará o fracasso e não se pode fingir que as escolhas não terão um preço – o não é necessariamente uma boa notícia para os países em crise, como Portugal – ou que não é preciso procurar qualquer equilíbrio.

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