Liberdade, liberdade

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Por que razão evitar a expressão outrora? Regressando lá, a esse tempo, Caracas não se me afigura como ameaçadora, nem violenta, mas apenas como um presépio em escadinha com luzes intermitentes, tantas luzes intermitentes que se tornavam elas próprias no fio do horizonte. Ao amanhecer descobri que as luzes que fascinaram eram barrios, as favelas venezuelanas. Outrora era eu adolescente, a Venezuela era um país prostrado, deslumbrante, e o comandante não havia chegado ao poder. Caracas sabia a manga, a arepas,  a pasta italiana e a pão português. Ressoavam nela as cadências do mundo.

 Foi preciso mais tempo, sobretudo mais densidade no tempo, para que eu entendesse que em Caracas, que na Venezuela, como em todas as cidades em convulsão, como em todos os países revolucionários existe o inquieto, o curioso, o ignorado, o pobre, o oprimido, o inqualificável. E o abuso, o torcionário, o déspota.

Na atenção dos media internacionais as imagens de Caracas, da horrível violência nas ruas da Venezuela competem por uma migalha de atenção. A Europa olha para Kiev, onde estão em jogo as suas fronteiras, a sua segurança energética e onde se disputa um braço de ferro com a cada mais autoritária e perigosa Rússia. Na cínica contabilidade dos mortos a Ucrânia ultrapassa a Venezuela. E são mortos brancos, de olhos azuis. E há revolucionários fotogénicos que tocam piano nos intervalos da revolução.  Moisés Naím nota hoje no  El País que “ a América Latina não é competitiva, nem sequer nas suas tragédias”.

Façamos zoom-in. Hugo  Chávez levou os cientistas políticos reverem etiquetas: sonhador, obcecado por Simon Bolívar,  dono de uma  empatia genuína pelos pobres, narcisista, déspota. Morreu amado e odiado, deixando menos pobres, uma inflação tenebrosa, a dívida pública dez vezes superior à 2003, manipulação da justiça, perseguição à imprensa, corrupção, desemprego, aumento da criminalidade violenta, violação dos direitos humanos e uma sinistra influência de Cuba nos desígnios venezuelanos. Quando falamos de Chávez falamos sobretudo de um ditador eleito e Nicolás Maduro é o seu aprendiz.

É sabido que uma das vacas sagradas do chavismo é o “pobre”. Para muitos o que está em jogo  actualmente nas ruas de Caracas é mais um episódio de um longo conflito entre um Governo que “ama os pobres” e odeia o “imperialismo dos Estados Unidos” e uma oposição  que muitos jornalistas descrevem como “classe média” .  Essa descrição está errada. Facto é que metade dos venezuelanos está contra o governo de Nicolás Maduro. É o que demonstram todas as pesquisas e resultados eleitorais.  Apesar de todas as tentativas de manipulação Maduro chegou à presidência com uma margem mínima de 1,5 por cento sobre o candidato da oposição. A classe média Venezuela está longe de representar metade da população do país, pelo que muito milhões de pobres, aqueles que Maduro diz representar estão contra ele.

Na Venezuela, o país com as maiores reservas petrolíferas do mundo falta insulina para os diabéticos, falta leite para as crianças, faltam shampoos e papel higiénico. A escassez , o medo e o desencanto tornaram-se insuportáveis.

Nestes dias, perante o desinteresse geral, assiste-se na Venezuela ao estertor do “socialismo do século XXI”. Trava-se uma luta de vida ou de morte.   A luta pela liberdade na Venezuela feita por anónimos de pele dourada, por rainhas de beleza, estudantes e habitantes dos barrios, merece o nosso respeito e a nossa solidariedade. E não é por o sonho, como todos os sonhos, fazer uma travessia por momentos de pesadelo que um dia não haverá um belo despertar. Em liberdade.

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