Post Obsceno

A distância que nos separa tem o diâmetro da vida. Bona. Amesterdão. Porto. Vila-Real. Vila-Nova. Está gélida a noite. Abro a porta da capela. Descobri na soleira daquela porta que a cada passo me aproximo do precipício. Passa das 23 horas, a aldeia dorme. Observo-lhe as mãos. As mãos do meu pai foram sempre extravagantes. Magras, ossudas, sólidas, desproporcionais num corpo leve, de passarinho. De passarinho com sonhos que habitavam geografias tropicais e terra vermelha. Toco-lhe nas mãos. Açoita-me o gelo. Aquelas mãos estão circunscritas a um único tempo verbal, o pretérito. É-me impossível perpetuar a ilusão. A distância que nos separa tem o diâmetro da eternidade.

“É vida”, sussurram-me conhecidos, familiares, amigos, bem-intencionadas faces que não conheço. Não sei quantas vezes ouvi estas palavras. Ora por uns ora por outros. Sei que antes já as tinha pronunciado irreflectidamente. Apercebo-me do seu absurdo. É preciso alargar o olhar para perceber o conjunto da trama. Não é a vida. É a morte e a sua insurreição. No caso do meu pai foi a alforria da enfermaria, do sofrimento. Consolo pequeno para o meu egoísmo que o queria deste lado. “É a vida”.

Vivemos numa época onde o luto se quer discreto, para não incomodar os outros. Na sua obra “Pornografia da morte”, publicada em 1955, o britânico Geoffrey Gorer, sublinhou, que “ a morte e o luto são tratados com o mesmo pudor do que os impulsos sexuais há um século”, na época vitoriana. Sendo indecente a morte deveria ser recatada, individual, privada, escondida.

Vivemos dias em que as rugas se cancelam com a ponta de uma agulha. Dias em que a tristeza se arreda com um golo de água e um Prozac. Alimenta-se a quimera da juventude eterna, da beleza imaculada com cremes e cirurgiões. Os “eus” photoshopados penduram-se como um vibrante Gauguin na sala com patine da vida. Podemos até pensar que ditamos as regras do jogo, como toda a miopia do mundo nos leva a crer, mas entre elas não estará nunca a imortalidade. Os velhos, trémulos, frágeis, enrugados, são incómodos, não porque evoquem o passado, ou porque contem uma história antiga que já ninguém quer escutar, mas porque conjugam o tempo verbal futuro de quase todos nós.

A morte confronta-nos com a nossa impotência e com os nossos limites, não é uma narrativa fragmentada, um caleidoscópio, uma história dentro de uma história. É uma coreografia rígida. E dói. Dói. Como dói. “Podemos censurar-nos por um acto, uma palavra pronunciada, não nos podemos censurar por um sentimento, simplesmente porque não temos nenhum poder sobre ele”, escreveu Milan Kundera e eu acrescento : nem quero ter.

Por favor não que me digam “é a vida”. Quero que me permitam chorar, me tolerem a despedida, me deixem ser obscena. O caixão cerrou-se mas contém o peso de uma existência, da sua extraordinária singularidade. Aquele homem naquele caixão que baixou à terra era o meu pai e a distância que nos separa tem o diâmetro da eternidade.

PS- Não quero ser ingrata com todos aqueles que me expressaram os seus pêsames, que me tocaram com mão na face, tiveram a delicadeza de um abraço, de um telefonema ou ternura de me oferecer M&M. Agradeço a Deus a graça imensa de ter colocado na minha vida tantas pessoas generosas, que enchem de luz os locais por onde passam e que me ajudam a alisar as arestas da vida. Vocês são a minha dose diária de beleza e quando me secarem as lágrimas encontrarei aí forças.

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