A Suíça disse Fuck the EU? *Aviso: Post politicamente incorrecto.

O resultado do referendo suíço não constituiu uma surpresa para ninguém. Embalados pela ficção de que basta os “líderes” europeus quererem para que tudo corra de acordo com o script, a Europa prefere ignorar o incómodo que boa parte dos cidadãos sente face a uma “imigração descontrolada”, ou assim percepcionada, e que esse sentimento não tem necessariamente a ver com xenofobia.

Se por hipótese este referendo se realizasse em França, na Holanda, na Alemanha (onde a legislação não o               permite) ou em Portugal estou convicta que o resultado seria semelhante.

Talvez o choque suíço, em grande medida causado pelo facto dos visados serem cidadãos da União Europeia                 (que constituem 70 por cento dos estrangeiros na Suíça) e não imigrantes “incómodos” que a fortaleza Europa                encara como “risco” e tenta a todo custo manter do lado de fora,  seja o momento ideal para se reflectir sobre quatro questões:

a)      O debate sobre a imigração é uma questão não apenas de humanidade, mas de valores, direitos e de deveres. Já é tempo dos decisores políticos em Bruxelas perceberem que a democracia corre perigo se  se continuar a   seguir a lógica aritmética dos gráficos e das contas  e  a desvalorizar os receios das populações.

Há muito que os temores e desconfianças, fundados ou infundados,  não estão a ser levados a sério, por um lado,  e por outro, que os benefícios da emigração para países como a Suíça (por exemplo os melhores profissionais qualificados alemães estão lá a trabalhar enquanto por exemplo na Alemanha há falta de médicos) não estão a ser devidamente explicados ( é mais fácil agitar contra o “outro”, “ o estrangeiro”).

Para um país como a Suíça, com cerca de oito milhões de habitantes, a chegada anual de 80 mil emigrantes é, compreensivelmente, algo percepcionado como ameaçador. É preciso entender que a Suíça não é apenas Zurique ou Genebra, mas que é formada por muitas regiões do “interior” e que como diz uma provérbio suíço, “quanto mais apertado é o vale, mais estreito o horizonte” .

Quando em Portugal, ou noutros países da União Europeia, se escreve sobre os imigrantes africanos usam-se palavras como “risco”, “ameaça”, “plano de contingência” ou que “não se pode ficar de braços cruzados”.  Há os europeus e os outros.  Serão os suíços tão diferentes de nós?

b)      O fracasso do modelo do multiculturalismo e que a direitos correspondem deveres. Numa democracia importa reconhecer que “o Estado social não é um self-service sem quaisquer deveres”. As liberdades cívicas que tornam a vida tão agradável no Ocidente assentam num compromisso. Num dar e receber.

Vou referir-me apenas ao exemplo alemão, que é o que melhor conheço. Não podemos porém enterrar a cabeça irresponsavelmente na areia e fingir que não se vê uma minoria de  imigrantes, sobretudo muçulmanos, que vivendo aqui usa e abusa do Estado social alemão, que desrespeita os seus princípios democráticos e os valores do Ocidente. Leia-se aqui os hediondos crimes de honra e os casamentos forçados. Os ataques de 11 de Setembro – planeados em Hamburgo – e série sucessiva de atentados que foram sendo desmantelados pela polícia alemã nesta última década contribuíram para aumentar o desconforto do convívio. Sintomaticamente deste mal-estar resultam “teses” com as de Thilo Sarrazin, tratado como um “leproso” em praça pública por muitos, jornalistas e políticos ambos num pedestal, que nem se deram ao trabalho de abrir o livro.

A política esvaziou-se, deixou de ser palco de confronto de ideias e argumentos – por mais nefandos que sejam – e passou a ser arena de eufemismos. Daí o incómodo causado por declarações como a da chanceler Angela Merkel que apontou o fracasso redondo do multiculturalismo. Certa esquerda europeia – a mesma que apoiava o terrorismo da RAF  ou defendia a livre sexualidade da criança – tem dificuldade em olhar-se ao espelho e ver que o mundo de 68 se estilhaçou. Embateu contra o muro da realidade.

Defender as minorias é um dever indiscutível. Exigir que elas nos respeitem e respeitem os países de acolhimento também.

(Recentemente num grupo de Facebook um cidadão português perguntava com maior desfaçatez como poderia beneficiar dos apoios sociais do estado alemão e se valeria a pena emigrar para a Alemanha para os receber. Felizmente que as respostas a esta pergunta se pautaram pelo bom senso e lhe fizeram notar a enorme cara de pau e falta de moral). Uma vez mais: serão os suíços tão diferentes de nós?

c)    Que a União Europeia chegou ao limite da sua capacidade de absorção de novos membros. Agora tem de se conceder uma pausa de décadas e integrar os que fazem parte da União e sair da sua torre de Marfim.  Às vezes penso na Europa como uma espécie de Vaticano : dogmática e divorciada dos cidadãos , mesmo daqueles que ainda acreditam nela e que a vêem como um projecto político de paz.

d)  Que a UE tem de ter a coragem política de bater o pé aos países membros que fazem “cherry picking” escolhendo as vantagens de ser Europa e pondo de lado os deveres (o Reino   Unido é um exemplo paradigmático).

A Suíça não disse “Fuck the EU”, apenas colocou o dedo numa ferida. A reacção da Europa é a de uma prima dona ofendida.

O actual debate sobre a imigração (e o que lhe está subjacente o da integração) mostra que demasiadas chancelarias permanecem reféns de conceitos do passado e de uma dupla moral. Será bom discutir isto tudo agora para que não se dê palco a partidos extremistas de direita e de esquerda.

2. Em 2004, ano em que se comemoravam os 25 anos da União Europeia, estive em Zittau, uma cidadezinha a duas horas de distância de Dresden ,no leste da Alemanha, com um ar vagamente mediterrânico, praças espaçosas e cuja câmara municipal se assemelhava a um palazzo italiano.

Na zona antiga da cidade, cuidadosamente recuperada depois da reunificação alemã, a partir do miradouro do campanário da igreja de Santo Johannis, o olhar descobre a oeste a silhueta da cidade polaca de Bogatynia, e a sul os contornos da checa Hrádek. É nesta cidade saxã que faz fronteira com a República Checa e a Polónia, que o chanceler alemão Gerhard Schroeder, e os seus homólogos polacos, Leszec Miller e checo Vladimir Spidla festejaram a unificação da Europa, o regresso do “ocidente raptado”, na expressão do escritor checo Milan Kundera.”.

“É bom que eles venham “, diz Reinhard Rotikke, o vigilante da torre de Santo Johannis. Rotikke sacode a cabeça quando ouve “was soll das bringen (o que é que é isso nos irá trazer), confessa que gostava de ver Zittau mais “animada” e que a sangria em direcção a oeste estancasse. ” Isso” é a adesão de dez novos países , acompanhada em Zittau por doses iguais de esperança e de temor. Arndt Voigt, o então presidente da Câmara Municipal, não precisa de pensar durante muito tempo quando lhe perguntam se o alargamento da União Europeia encerra mais riscos ou mais oportunidades. “Oportunidades claro”, dispara. ” A partir de 1 de Maio vamos sair deste beco sem saída artificial”. Para comprovar a sua tese estende sobre a mesa um mapa. “A nossa situação geográfica foi fonte de riqueza durante muitos séculos. Actualmente somos pobres, mas temos potencial”. Não será por acaso que um dos actos conjuntos dos líderes de Berlim, Praga e Varsóvia foi  o lançamento da primeira pedra de uma estrada que ligue Zittau, Bogatynia e Hrádek, necessária para dinamizar o projecto de criação de um espaço económico comum às três localidades.

O optimismo do autarca Voigt , não é comungado pela grande maioria dos habitantes de Zittau, nem pela maioria dos alemães de Leste que vivem em regiões raianas. Uma sondagem do instituto Emnid, elaborada para o Governo regional da Saxónia, espelha o desassossego. 88 por cento dos inquiridos afirma temer concorrência adicional no mercado laboral e 86 por cento receia um aumento da criminalidade. Como a maior vantagem do alargamento 96 por cento aponta a garantia de uma paz duradoura com os vizinhos.

“Lichter” do realizador Hans Christian Schmid  é uma chave para compreender o sentimento que grassa na fronteira. Rodado em 2000, na fronteira entre Frankfurt-am-Oder e Slubice, na Polónia, retrata uma fauna de clandestinos à procura de um meio de passar para o Ocidente. Contrabandistas de cigarros, prostitutas, traficantes profissionais. Tocando num sujeito omnipresente na próspera sociedade germânica, onde entram anualmente 200 mil ilegais. Clandestinos que trabalham na construção civil, fazendo limpezas, tomando conta de pessoas idosas ou na agricultura.

“Na Alemanha a mão-de-obra com saída é polaca. Na Polónia é ucraniana”, constava, em 2004, de forma cruel, mas certeira o semanário “Stern”, pondo o dedo na ferida: para muitos alemães, agora que os novos membros da União serão “legais” o perigo reside nos países limítrofes à nova cartografia dos Vinte e Cinco.

O destino de Zittau serve de metáfora para tantas outras cidades fronteiriças da antiga RDA. Outrora rica, partida pela linha do Oder-Neisse fixada em 1945, agonizando lentamente sob o regime do “socialismo real”.

Na altura em que visitei Zittau o quotidiano rimava com desemprego, êxodo populacional e desindustrialização. Vinte e seis mil pessoas viviam por detrás das fachadas recuperadas, ou das decrépitas, oito mil pessoas abandonaram a cidade desde 1990 em direcção a Oeste, deixando para trás 4500 casas vazias. Tal como os fluxos financeiros correm atrás dos impostos mais baixos, os fluxos humanos seguem o emprego, e este era (é) um bem escasso em Zittau, onde a taxa de desemprego rondava os 25 por cento.

Pouco mudou numa década.

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4 thoughts on “A Suíça disse Fuck the EU? *Aviso: Post politicamente incorrecto.

  1. Hoje escrevi um post mais ou menos do género “Switzerland practices a kind of direct democracy, which means the people is called several times a year to vote directly over initiatives and to make parliament or executive decisions binding. Matters otherwise decided by the political class, in advanced democratic countries, are subject to the direct judgment of citizens. Last weekend the Swiss rendered a decision regarding the unlimited entry of persons from countries that are members of the European Union – in which Switzerland does not participate, result of another popular vote that was strongly opposed by the elites. Should Switzerland, as a sovereign state, assert the right to control its immigration and to set rules for residency? Additionally, a larger issue hovered behind the vote. It involved resisting the growing power of “Brussels” to centralize and bureaucratize Europe. Almost all the newspapers and the electronic media, as well as the executive, predicted the end of civilization should the people vote wrongly. That forecast was given support by threats fired off by the EU, which claimed that the screening of entrants involves a violation of bilateral Swiss-EU treaties. The threatened consequence: economic retaliation that amounts extortion by a promised boycott.”
    http://txticulos.wordpress.com/2014/02/10/if-a-snake-bites-your-neighbour-you-too-are-in-danger/

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  2. Cada macaco no seu galho.Emigracao, sim mas controlada.Os lobbys sao a favor da emigracao a toda a forca, porque assim terao uma mao de obra que nunca tera poder de reeivindicao, por conseguinte muito docil.Cada Pais e soberano,por isso tem o dever de defender os seus cidadaos, por isso e mais do que correcto o que o Governo Suisso fez!

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