Um burro que era um relógio

Parte do Brasil que me habita é feito de lugares “bem pra lá do fim do mundo”. É o Brasil da periferia, do “quilombo moderno”, que parece estar sempre atrasado para  a aventura do mundo e que me dá muitas pistas para reflexão.  Num dos muitos caderninhos alinhados no meu escritório escrevi  “não quero ter uma vida de Photoshop”. Redescobri  esse  caderninho agora que andava a pesquisar  – sobre o Brasil, preparando a longa viagem e a aventura, literal, que irá ser acompanhar a “Copa” – e redescobri  dobrado dentro dele, um texto de uma menina de  Douradoquara, no estado de Minas Gerais, que venceu as Olimpíadas da Língua Portuguesa na categoria de crónicas.

“Por aqui não tem shopping, não tem cinema, não tem churrascaria, não tem pizzaria, não tem funerária, não tem feira, não tem zoológico, não tem Pronto-Socorro, não tem espaço cultural, não tem parque, não tem quase nada. Mas aqui tem uma coisa que cidade nenhuma tem. Sabe o que tem aqui? O jumento do tio Joãozinho. O despertar da manhã com o galo, que nada! Aqui o despertador é na “base” do zurrar do jumento “.

A crónica desta menina, uma pincelada de um Brasil pequeno, dentro de um Brasil enorme, é de uma enorme ternura. Tem a capacidade de ver para além do olhar e de descobrir na imperfeição a beleza. Haverá acto de liberdade maior do que escolher a forma como olhamos?

“O Paioso (que foi o nome dado a ele) reside aqui pertinho, numa chácara. Além de despertador, no pensamento do Paioso ele se acha um ótimo cão de guarda. Lá na chácara se ele vê chegar alguém, vai logo dando o alarme, se escuta qualquer barulho, vai logo zurrando. É um tipo de jumento de guarda. Mas o que ele gosta mesmo é de acordar a cidade, o Paioso é como um despertador”.

É sempre possível apaziguar alma. Quando o rádio me desperta pela manhã com música suave recordo-me muitas vezes do Paioso  (e do  meu despertar na Raposa Serra do Sol, bem no finalzinho do mapa do Brasil, ou no princípio, é tudo uma questão de perspectiva).

Conhecem outra cidade como Douradoquara, com um jumento como despertador? Meu adorável Brasil.

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One thought on “Um burro que era um relógio

  1. Eu tenho muita saudade desse Brasil. Não só porque ele é de uma enorme ternura mas também porque põe em perspectiva uma série de incómodos ou insatisfações que nós tendemos a sobrevalorizar nas nossas vidas urbanas e conectadas. Obrigada por partilhares estas reflexões.

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