E que tal o país ver-se ao espelho?

1.Primeira tarefa do dia: consultar o dicionário para saber se a palavra absurdo em Portugal tem o mesmo significado que no resto do planeta Terra. Não pode ter. Já lá vamos.

Muitos saberão que o poeta francês, André Breton, visitou o México no final da década de 30 do século passado e que fascinado pelo “passado mitológico” do país e pela “conciliação da vida e da morte” cunhou a seguinte frase: “o México é um país surrealista”.

Décadas decorridas a frase saída das impressões de viagens do poeta são usadas para legitimar: a corrupção, a violência dos traficantes, a burocracia kafkiana e atroz desigualdade social. Mas a realidade do México, comenta o escritor mexicano Juan Pablo Villalobos, não é surrealista: é atroz, lacerante, terrível, absurda.

Que diria André Breton se visitasse Portugal no século XXI durante as chamadas praxes (que “conciliam” “integração” e “solidariedade”)? “Portugal é um país surrealista”? Ou como categorizar um país onde jovens inteligentes se sujeitam a exercícios de submissão infligidos por duxes veteranoruns cuja “autoridade” reside no maior número de matrículas e de anos passados na Universidade. Estarei a ver mal, isto não é perverso?

2. Como escreveu José Manuel Fernandes nas páginas do Público, num dos mais equilibrados artigos sobre praxes que li nos últimos tempos, “os estudantes universitários não são de repente, as ovelhas ranhosas do Portugal contemporâneo”.

Não. Eles são o retrato de um país que comenta copiosamente as “galas” desse espectáculo amoral que é a Casa dos Segredos, cujos ídolos são brutamontes, mal-educados e com um ervilha no lugar de cérebro, ou meninas com muita perninha e muita maminha à mostra e cujo quociente de inteligência é directamente proporcional à escassez de tecido. São o retrato de um país onde não há um debate político em que os interlocutores se escutem, sem interrupções, e usem argumentos em vez do insulto fácil ou da demagogia soundbite. Sintomático desse vazio é o facto de após um longo programa  televisivo dedicado a debater, com alguma profundidade a praxe, a síntese nas redes sociais ser uma piadola  de uma dirigente estudantil sobre absinto.

A vulgaridade das praxes é um espelho de uma sociedade onde o respeito pelo outro passou de moda e a boa educação, o ter valores, o ter coragem civil é tida por muitos com antiquada, uncool, assim como a cultura ou a leitura de mais do 140 caracteres.

A violência das praxes é sintomática de uma sociedade que aceita a palmada para “sacudir moscas” como um método educativo ou que acha normal os excessos das claques futebolísticas.

“Quem pensa que se pode viver bem em sociedade sem valores e sem referências morais, à vontade de cada um, sempre a pensar no prazer imediato e irrestrito, só esperar uma sociedade reduzida ao código das praxes”.

Que jovens inteligentes, que jovens no século XXI aceitem pôr os olhos no chão só porque alguém lhes ordenou é terrível.

Que jovens humilhem outros jovens replicando padrões de comportamento de  Kapos é atroz.

Que haja pactos de silêncio e normas e se ignore o sofrimento das vítimas e dos familiares das vítimas é intolerável.

Que Portugal olhe apenas (não sem uma ponta de inveja social) para os jovens universitários como monstros é inaceitável.

Que as Universidades façam como Pilatos é obsceno.

O Portugal das praxes não é surreal, é absurdo. E aparentemente não vem no dicionário de demasiados. Cá vamos cantando e rindo.

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2 thoughts on “E que tal o país ver-se ao espelho?

  1. Durante muito tempo pensei que Portugal era um pais em estado selvagem, afinal não é absurdo mesmo.

    Os amantes da praxe comportam-se como alarves num restaurante de rodízio, queixam-se do tamanho da faiança, pena não haver alguidares para comer. A cultura do crime, bolha protectora feita de silêncio e cumplicidade, os séculos de tradição transformados em alarvidade impune nos Institutos, Escolas Superiores e Privadas aliaram-se aos sentimentos de maximização da experiencia(já que estou a pagar vai ser até rebentar).
    http://txticulos.wordpress.com/2014/01/27/rodizio-de-pilherias/

    Não nos falta sentido estético
    http://txticulos.wordpress.com/2014/02/04/amor-portuga-a-arte/

    Gostar

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