O que tem uma aranha a ver com política?*

Bunter Abend na escola da mais velha (para quem não está familiarizado com as tradições germânicas é uma festa organizada pelos alunos com um programa eclético). Mami sentada com a mais nova na primeira fila (locus estratégico para as fotografias).

Prefácio:Certos nomes e certas pessoas possuem uma particularidade, exprimem uma aspiração, nesta caso a “domesticação”, que tanto mais nos atrai quanto sabemos que nunca será satisfeita. Matilde “Die Wilde” (a indomável), é a alcunha da mais nova (desde o Kindergarten), mas não nos adiantemos.

Sala a rebentar pelas costuras. Olho à minha volta e vejo mais progenitores de sorriso imbecil estampado no rosto e olhar embevecido. Elas, digo elas porque as turmas são femininas, até podem ter 18 anos, ou quase, mas continuam a ser as nossas princesas, as nossas pequeninas. Face às minhas filhas (arrisco dizer às nossas) não há compromisso profissional com a objectividade. Note to self: a maioria das amigas da Joana, a minha filha mais velha, têm mais de um metro e oitenta e calçam de quarenta para cima (o que as desclassifica para Cinderela).

Apagam-se as luzes. O programa foi preparado com carinho pelas alunas, inclui quarteto de violinos, excertos de peças de teatro clássico, o grupo de dança da escola, a actuação da banda e do coro.

Parêntesis para falar da importância da música na Alemanha: anualmente vendem-se cerca de 20 mil pianos e pianos de cauda. Instrumentos que custam tanto como automóveis pequenos.   Aqui sobem-se escadas, 13 andares, para entregar um Bechstein. Em cada escola há uma orquestra, que toca Mozart, Mendelssohn, Beethoven e Debussy. Em cada localidade  há um coro. Lêem-se pautas. Os adolescentes conhecem e apreciam Anne Sophie Mutter. Os concertos de música clássica esgotam. Enchem estádios. Há quem faça centenas de quilómetros para ir à ópera ou ver um concerto. Os jornais dedicam-lhe páginas, fazem honra de capa.

O amor alemão pela música resulta estranho a olhos portugueses, onde a iletracia musical é enorme, onde a música só interessa como entretenimento – as Lilianes Marises desta vida enchem os talk shows televisivos –  tudo o que foge disso é rejeitado, “we are all now entertainers”, como cantavam os Nirvana. Só a razão não pode fornecer toda a resposta do homem à realidade. E certa  música  roça o divino.

Back to school, que é como quem diz para o que eu estava a contar.

Ao ver a Joana cantar no coro e a tocar bateria na banda sinto um nó a formar-se na garganta, entro em modo down memory lane, como é que já passaram doze anos? Inventario imagens. Vejo-a aos cinco anos a subir a custo a escada do conservatório e ajeitar os dedinhos minúsculos nas cordas do violino( vocês não queriam ter sido meus vizinhs na  altura, acreditem) e a entrar para a escola primária com um vestido de xadrez e um laço nos caracóis louros. Mais depressa do que uma viagem de Concord a princesa sonhava ser luthier, transformou-se numa adulta, numa mulher linda. Ai aquela dorzinha que acompanha o desatar do cordão umbilical. “Pudesse eu não ter laços nem limites”.

O coro canta de olhos brilhantes “estes foram os melhores anos da minha vida”. “Estás a chorar Mami?”, pergunta a peste. “Queres que me sente ao teu colo?”. Mami mais derretida que um chocolate esquecido no bolso.

No intervalo apercebo-me que a peste é mais popular que um bunter Hund (googlai, googlai). “Será por ser a irmã mais nova da Joana?”. BZZZZZZ. Wrong. Eu devia saber melhor conhecendo a minha filha mais nova, que aos dez anos leva a vida como aqueles equilibristas de pratos no circo, que aceleram o ritmo delirantemente e apanham pratos vindos da esquerda e da direita, de trás e da frente, sem se desequilibrar, nem os pratos estremecerem (apenas a mãe).

Uma professora elucida-me. “A Matilde contou-me que ser política”. Esboço um semi-sorriso. “Ela sabe muito sobre política e há poucas crianças que gostem tanto de mitologia grega”. Alargo o sorriso (e grito yes por dentro). “Mas tem um sentido de humor, digamos peculiar”. “Sim?”. “Ao explicar a diferença entre ditadura e democracia por exemplo, ela citou-a dizendo que democracia é quando os alunos mandam nos professores e ditadura quando os professores mandam nos alunos”. Onde é que andam as gabardinas, os óculos escuros e os jornais quando nós mais precisamos deles?

Para que fique claro a frase que uso muitas vezes (na brincadeira) com as minhas filhas é: cá em casa o sistema é democrático, mas quem manda sou eu.

Pois é os filhos dão cabo de nós, mas são a nossa benção diária.

PS- Hoje bem cedinho quando a luz generosa da manhã me entrava pela janela e começava a abrir os olhos ouço uma voz meiga. “Acorda Mami”, diz-me a Matilde dando-me um beijo suave. Antes de eu despertar completamente: “Mami quantas patas tem uma aranha?” Na vida há as coisas importantes e as outras.

* Nada. Ou tudo porque, como dizia o Borges, “todas as coisas do mundo conduzem a um encontro ou a um livro.”

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5 thoughts on “O que tem uma aranha a ver com política?*

  1. Obrigado por partilhar este texto maravilhoso Helena 🙂
    (Ainda bem que não preciso de googlar o “cão multicolor” :-))
    Saber mitologia grega é fundamental para poder manipular os desgraçados dos crentes votantes 🙂

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  2. Um belo texto Helena. Posso só deixar uma correcçãozinha (que nada muda em relação ao texto)? O verso dos Nirvana era “Here we are now/Entertain us!”.

    E concordo, a cultura musical alemã é um verdadeiro choque em relação à portuguesa. Adiciono: também em relação à holandesa.

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