Tornar visível o invisível*

Ponha-se num céu alto uma Lua tranquila, como escreveu o Vinicius. Pede ela um violão? Talvez. Para mim ela pede um romance, daqueles que urubuobservam a vida e entram na corrente sanguínea.

Escrito em apenas 12 dias, porém dentro do autor durante muitos anos até ele conseguir quebrar o cadeado, O meu Pé de Laranja-Lima, de José Mauro de Vasconcelos, um dos livros mais traduzidos da literatura brasileira, é um desses romances.

Embora o enredo seja despretensioso e a linguagem acessível, o livro extravasa a categoria de literatura infantil. Não se entra neste livro à procura de conforto, todo é ele é uma revolta sem raiva. A história do Zezé – menino que vive numa família, como agora se diz, desestruturada, com um pai alcoólico e desempregado, a mãe empregada fabril, submissa, ausente e um bando de irmãos – invoca os sentimentos mais nobres e profundos, a amizade, a capacidade de empatia, a ternura, o desejo de ser amado e o lado mais sombrio e cruel da alma humana.

A infância de Zezé é estilhaçada pela pobreza e pela morte real, do “Portuga”, o pai que Zezé queria ter, e metafórica, da árvore e com ela o desmoronar do mundo de fantasia, refúgio da meninez. A frustração dos adultos, dos mais fortes, a sua impotência, o seu fracasso, a sua pequenez  é despejada sobre o menino a golpes de cinto. O meu Pé de Laranja-Lima é  sobretudo um comovente um libelo contra a violência doméstica e nada perdeu em actualidade.

“A maior tragédia dessa história é que as crianças confiam nos adultos. As crianças confiam nos adultos como uma bússola ou um oráculo. Agarram-se a seus actos e palavras como uma bóia no oceano, oráculo, agarram-se a seus actos e palavras como um bóia no oceano, ameaçador de uma vida à qual recém foram apresentadas”. Encontrei estas palavras de Eliane Brum no prefácio de uma tese sobre violência familiar. As crianças são puras demais  para saber que muitos adultos preferem conjugar o verbo ignorar ao verbo agir.

Na última década mais de quatro milhões de crianças e jovens em todo o mundo recorreram a linhas de apoio para denunciar abusos e violência. Os casos de abuso e violência são relatados maioritariamente) por raparigas, sendo que grande parte (58 por cento) dos abusos descritos são atribuídos a membros da família. Quase metade (46 por cento) dos contactos foram realizados na Europa, sim na “civilizada” Europa, e a maioria das crianças e dos jovens que recorreram às linhas de apoio tinha entre 10 e 18 anos.

— Mas não podem bater tanto numa criancinha como tu. Ainda nem fizeste seis anos. Minha Nossa Senhora de Fátima!

— Eu sei por quê. Eu não presto mesmo. Sou tão ruim que quando chega o Natal acontece aquilo: Nasce o Menino Diabo em vez do Menino Deus!…

— Besteiras, tu és um anjinho ainda. Podes ser um tanto traquinas…Aquela idéia fixa tornou a me angustiar a mente.

— Eu sou tão ruim que nem devia ter nascido. Eu falei isso para Mamãe outro dia.Pela primeira vez ele gaguejou.

— Não devias ter dito essas coisas.

— Eu pedi para falar com você porque precisava muito. Eu sei que é ruim Papai com aquela idade não pode arranjar trabalho. Sei que deve doer muito. Mamãe ter que sair de madrugada, para ajudar a pagar a casa. Mamãe trabalha nos teares do Moinho Inglês. Ela usa uma cinta porque foi suspender uma caixa de espulas e ficou com aquela hérnia. Lalá é uma moça que até estudou muito e teveque virar operária da Fábrica… Tudo isso é coisa malvada. Mas também ele não precisava me bater tanto daquele jeito. No Natal, eu prometi que ele podia me bater o quanto quisesse, mas dessa vez foi demais .Ele me encarava atônito.

— Senhora de Fátima! Como pode uma criança assim entender e sofrer com os problemas de gente grande. Nunca vi!

*O que é que isto tem a ver com as (algumas) praxes? Tudo. Desejo de ser aceite, culpabilização, violência, invisibilidade.

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