Revolta da Farofa

surreal

Das muitas coisas de que gosto no Brasil, país onde a gentileza humana parece ter feito o seu último reduto, há uma que amo de paixão: o neologismo. Os brasileiros nasceram com a virtude do neologismo. Ninguém samba com tanta graciosidade com as palavras. Um samba tão completo que não precisa de metáforas. O neologismo no português do Brasil é o meu ídolo. Só por inibição é não lhe peço um autógrafo.

O mais recente neologismo é o “Surreal” e já virou samba, mas não nos adiantemos. O Surreal é a nova moeda brasileira que circula nas redes sociais e que para muitos brasileiros deveria substituir o Real face aos preços abusivos praticados por um por todo lado no país. Imagina na Copa.

Assustada com o emagrecimento contumaz da conta bancária a jornalista Patrícia Kalil, concebeu uma nota com a cara do pintor Salvador Dali substituindo a efígie da República e compartilhou-a no Facebook. Nunca se deve desprezar o poder de uma ideia: passavam apenas cinco horas e o “Surrea”l já havia chegado a 50 mil pessoas. Logo em seguida foi criada uma página de protesto no Facebook chamada “Rio Surreal- Não Pague” onde se fazem denúncias e se apela ao boicote ao consumo. Nasceu a Revolta da Farofa.

Nos dias que correm um pacote de batata frita pode custar, numa barraquinha de praia do Rio, orgulhosos 28 Reais (um pouco mais de 9 euros), o que é mais do que suficiente para comprar 15 quilos de batata no supermercado.

Pior. Com estes preços o tradicional churrasquinho, perdeu o direito ao diminutivo, passou a ser ostentação (genial  Luis Fernando Veríssimo previu tudo). Churrasco não é mais um convívio informal, de havaiana no pé e tomara-que-caia, onde se é feliz. Transformou-se num majestoso: “grillade sur braises avec de Ia farine de manioc à Ia graisse”. É fácil prever o que acontecerá depois. Romeu e Julieta? Esqueça. É “confiture de goyave avec du fromage”. E a caipirinha? Virou “cai”, porque falta grana para comprar limão para a “pirinha”.

Como é sabido, entre os poucos prazeres universais da Humanidade conta-se o pastel de beira de estrada, a coxinha, a abacatada na Skina dos Sucos em Manaus, o coco em Copacabana e a picanha… Só um minuto que eu preciso passar um lenço de papel pelo teclado. Oi? “Se Deus quisesse que pobre tivesse prazeres daria uma ajudinha de custo, né?”. É a pergunta do malandro naquele seu jeitinho brasileiro.

PS – E o samba de que falei no início? Conta-se em duas penadas, uma escola de samba carioca pediu autorização à jornalista para usar o “Surreal” nas fantasias de desfile deste ano e até já existe uma marchinha. I love you meu Brasil.

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3 thoughts on “Revolta da Farofa

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