Balada da Emigração: para o meu pai

Era uma tarde de Verão transmontano. Azul luminoso o céu, cor de calor. Na aldeia, imutável na sua fingida serenidade de pedras de granito, o ar queimava a cada inspiração. A aldeia reunia-se no café. Entre uma bica e outra as invejas, as raivas, a maldezinha, às vezes a solidariedade vêm esporadicamente à tona, talvez como compensação para um dia-a-dia em que são escassos os acontecimentos dignos de nota. Se há um lugar onde se pode observar as subtilezas, o mais elevado e a fundura da alma é no café da aldeia. De qualquer aldeia. Nesta história o café é personagem secundário.

“Avô, por favor. Bitte, bitte, bitte”.

Há sete anos ela era uma menina suave, caracóis louros e um sorriso com a incrível perfeição da inocência. Nuns arbustos perto do café, a Joana seguira um miado baixinho. Escondido entre a folhagem estava um gatinho bebé. Ruivo de olhos claros, luminosos de solidão e de doçura. Aconchegou-se na mão dela. “Podes ficar com ele por favor? É tão pequenino? Bitte, bitte, bitte. Vamos chamar-lhe Cenoura”.

Flashforward. O Cenoura tornou-se num gato imponente no tamanho, de orgulhosa postura e leal como se pode afirmar de poucos gatos. O avô e a sua sombra. Nesta história o gato é personagem secundário.

O avô, o meu pai, é a personagem principal.Ele que lutou a vida inteira para escapar ao cárcere nada metafórico da aldeia está amarrado por tubos a uma cama. Pelo Natal deixei-lhe um livro de viagens na mesa-de-cabeceira. Fragmento de liberdade. Enquanto o cancro o devora por dentro, eu luto com a minha impotência. De lhe travar o sofrimento, a morte que ele e eu sentimos perto. Quero fazer alguma coisa mas não sei bem o quê, como se a sua terrível solidão estivesse para além de todos os meus gestos, do apertar as suas mãos nodosas, e fosse tarde de mais para qualquer palavra.

O meu pai morre-me num hospital em Vila-Real e eu, a três mil quilómetros de distância, sinto-me como a pintura mais famosa do norueguês Edvard Munch, asfixiada por um grito silencioso. Não sei quando e se o vou voltar a ver. Na balada da emigração ninguém canta esta dor. Nem a coragem e combate da mulher extraordinária que é a minha mãe.

Ele é homem comum. Não descobriu um motor movido a água como sonhava – na gaveta ainda existem papéis  com  esquemas mecânicos desenhados a lápis Viarco – nem voltou a pisar a terra vermelha da Guiné. O meu pai é um homem comum. Ou quase comum, porque se esqueceu de viver.

 A infância passou-a em Vila Nova, aldeia remota de Trás-os-Montes, nos anos quarenta do século passado. Nesses dias, que me parecem longínquos e que a imaginação não é suficiente para evocar, a vida era uma tragédia permanente.

Na infância do meu pai havia missa ao domingo, uma enxerga de palha para dormir e um arado para sulcar a terra de madrugada antes de ir à escola. Adormecia embalado pela fome. Jantar havia quando calhava.  Enganava-se a magreza com umas batatas, umas couves, côdeas de broa, fruta roubada dos pomares. Os pés durante anos só conheceram alpercatas. As calças eram puídas, remendadas, seguras por um cordel. Não passava um dia em que não houvesse enxertos de cinto por-dá-cá-aquela-palha, gritos, insultos. Colo foi topografia que não palmilhou. Se teve sonhos foi vedado de sonhá-los. A tristeza gelada como a geada, muda, apertava-lhe o coração de garoto. Entranhou-se. Ficou.

A memória dos odores também permaneceu. O do estrume dos animais na loja, o da fuligem entranhada nas paredes, negra como algumas almas. E o cheiro do deus no altar da pobreza daquela casa de granito: o vinho.

Nunca falou da infância. Aliás, nunca falou da sua história. “A meninice são instantes não são? O resto é o que fazemos da vida”.

Há dois anos, à mesa, a neta mais nova desarmou-o. Depois de a avó, enternecida, lembrar a alegria das moedas de tostão, o cheiro a laranjas, as nozes, o punhado de guloseimas, ou mesmo o brinquedo novo que o menino Jesus lhe deixava habitualmente no sapatinho, a Matilde perguntou: “Avô o que tinhas pelo Natal?”. Uma alpercata cheia de nada. Fez o trejeito involuntário dos que querem exorcizar recordações antigas.

É a mim, almofadada pelo meu conforto material, que não a vivi, que  a memória desse homem-menino talvez mais doa. De repente o silêncio encheu-se de significado. Percebo a ausência. Entendo o trocar os grilhões da aldeia pela ilusão da liberdade. Mesmo que essa liberdade fosse o inferno dos pântanos da Guiné. Constato que além do nome, de uns breve instantes fixados em fotografias a preto e branco,  quase nada sei do acerca daquele homem que se despede da vida no Portugal distante. E agora é tarde demais para qualquer palavra.

O gato do meu pai, o gato mimado do avô personagem secundário nesta história, deixou de comer quando o dono foi internado. Miava longamente à porta do quarto, mas não transpunha a soleira da porta. O Cenoura morreu ontem. De solidão.


21 thoughts on “Balada da Emigração: para o meu pai

  1. Sinto muito, Lena, como a compreendo eu ainda hoje sinto muita falta do meu pai e lembrou-me constantemente, na próxima semana seria o seu aniversário. Muita força e bjs 🙂
    Nelly

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  2. Helena, tenho muita pena. Fiquei até com vontade de visitar o seu pai por si, o que obviamente é uma estupidez (e impossível, Vila real fica na prática tão distante do Algarve como da Alemanha).
    Não houve quem conseguisse consolar/segurar o Cenoura?

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    1. Ele tinha sete anos e uma ligação fortíssima com o dono. O meu pai estava no sofá e ali estava o gato, o meu pai sentava-se no computador e gato saltava-lhe para o colo. Na hora de dormir tinham um ritual girissímo, o gato ia à frente para o quarto e miava, se o meu pai não vinha logo o Cenoura esfregava-se nas pernas, miauuuuu, miauuuuu, até o convencer, depois esperava que o meu pai se deitasse e saltava para os pés da cama onde ficava até de manhã. Se o meu pai se levantava durante a noite por algum motivo lá ia o gato atrás.
      A minha mãe cuidou dele com muito carinho, mas o animal sofreu muito. Acredito que a saudade não seja só um sentimento humano.

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  3. Helena, a vida sempre tão maravilhosa e tão cruel. Sabemos que daqui ninguém sai vivo … mas de pouco nos serve saber tanto. Só o amor nos justifica nesta caminhada, estou certa disso. E com certeza o seu pai sabe a filha que tem. O gato, não sabia tudo? Não precisava de palavras. A gente também sabe. Toda a minha solidariedade para si.

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  4. Raramente li algo na blogosfera que me deixasse tão comovida.
    Também moro na Alemanha e também a minha mãe, em Portugal, teve um problema de saúde muito grave, no ano passado. Passou todo o Verão e grande parte do Outono e quimio e radioterapias. Não a ter acompanhado a par e passo, nessas horas tão difíceis, é algo que me continua a incomodar, apesar de ela, graças a Deus, se encontrar mehor. A situação parece estabilizada e esperemos que passe mais alguns anos entre nós.

    Mas a história do Cenoura também me pôs de rastos. É preciso sofrer muito, mas mesmo muito, para se morrer de saudade e solidão. Principalmente, em se tratando de um bicho ainda novo. Todos nós conhecemos histórias parecidas com cães, mas, com um gato, ainda não tinha ouvido. Seriam reminiscências de ter sido abandonado, em pequenino? Os animais estão sempre a surpreender-nos…

    Quem sabe, ele se torne a encontrar com o dono…

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    1. Muito se escreve nos dias que correm sobre as “maravilhas” da emigração depois de décadas a escrever sobre os “parolos” dos emigrantes, o que poucos se lembram é das pequenas e grandes tragédias da separação dos que gostamos.
      Obrigada Cristina.

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  5. Helena, Muitas vezes o silêncio é o melhor contador de histórias… Os meus olhos já não aguentam as lágrimas e só escrevinho estas linhas antes de sair a correr. Espero ver-te em breve, poderia ser em Bissau, onde te conheci, e ter a possibilidade de te dar o abraço que gostaria de te dar, agora. Um beijo amigo, JPC

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  6. Não me conheço, mas não posso deixar de lhe dizer que a história que conta, a da infância do seu pai, é uma história que eu também já ouvi, e é em tudo semelhante, até na região. E também lhe deixo um abraço, desejando-lhe muita força.

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  7. Helena, quando alguém nos fala do mundo sem fronteiras esquece-se certamente destes afectos. Só posso desejar muita força e mandar um beijo. Há 4 anos vi o que a mesma experiência fez à minha mulher, quando o pai (também tão longe como o seu) ia igualmente sofrendo com o cancro e ela sem poder estar lá permanentemente.
    Não posso ajudar muito, tal como o pude pouco nesse caso. Apenas envio um beijo de alguém que compreende (parcialmente) a situação.

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