É a cooltura, stoopid

Imagem roubada à Livreira Anarquista
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Onde isto já vai. A cultura. Eu explico. Hoje, na leitura diária da imprensa portuguesa, esbarrei numa carta de um leitor dirigida à directora do Público. O autor, um aluno estrangeiro de língua portuguesa, indignado, escreve o seguinte:  

“José Castelo Branco e Lili Caneças [ para os leitores deste blog não familiarizados com a vida social portuguesa : ambos são personagens que vivem da sua participação em eventos e festas] são figuras incontornáveis para o conhecimento do que é a cultura portuguesa.” O alerta é feito por uma professora num curso de Português para estrangeiros leccionado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A frase é acompanhada por um exemplar da revista Caras que é mostrado aos alunos. Estamos na Faculdade de Letras de Universidade de Lisboa, numa aula pós-laboral de Português para estrangeiros.”

Num primeiro instante senti-me corar com vergonha alheia, mas depois conclui que o que aconteceu naquela sala não é melhor nem pior do que o que acontece diariamente noutras escolas portuguesas. É uma reflexão da realidade nacional. Os tablóides, as revistas cor-de-rosa e as televisões controlam o espaço de debate público. Se é verdade que produzem alguma, escassa, inteligência, a outra face da moeda é que produzem muita indigência que passa por “pensamento”, por “cultura”.

Considerar Lili Caneças, cujo pensamento se sintetiza no bon mot “estar vivo é o contrário de estar morto”, figura incontornável  da cultura portuguesa é um pouco como comparar a Serra da Estrela com o Kilimanjaro. Peca-se por excesso ou por desconhecimento. Que isto aconteça na Faculdade de Letras roça o surrealismo e espelha um país onde as humanidades (humaniquê?) e a literatura são uma chatice. Os Maias? Boring. O Lobo Antunes? Intragável. O Pedro Rosa Mendes? Um gajo difícil e que ainda por cima não gosta de Angola. O Aquilino? Muito barroco e gongórico ( isto pressupondo que se conhece o significado de barroco e gongórico).O Camilo? Um chato. O Saramago? É português? Mas o gajo não vivia nas Canárias? O Rui Zink? Tem um humor corrosivo. A Agustina? Uma feminista.

A propósito da Agustina, talvez a maior escritora portuguesa viva, há dois episódios deliciosos da sua vida, que ela própria confidenciou numa palestra, que ainda hoje me fazem sorrir. A história dos  taxistas de Lisboa que a levavam em grandes pela cidade, tomando-a por uma provinciana carregada de volumes de supostos mantimentos, pacotes que envolviam as letras em forma de livro que escrevia, e de como isso não a incomodava. Ou um episódio passado no Porto, em que um vendedor do Bulhão, após lhe ter apresentado um papel com a conta das mercadorias, e Agustina o ter questionado sobre a quantia em causa, lhe ter perguntado se sabia ler.

Isto anda tudo ligado, bem dizia o poeta Eduardo Guerra Carneiro.

Ao contrário de muitos que não penso que é o Google ou a crescente tecnologização que nos (salvo seja) torna  “stoopid”, mas uma causa bem mais corriqueira: a falta de leitura, de livros com muitas páginas , de autores difíceis , what ever that means,  de livros que obriguem a pensar  e que exijam concentração .

Os portugueses continuam tratar mal os livros. Se calhar trocaram-nos pela Bimby. Desculpem não resisti.

PS – A autora deste post  está consciente que não é de todo qualificada para escrever sobre figuras incontornáveis da cultura portuguesa, salienta no entanto que isso nunca impediu ninguém de o fazer  anteriormente.

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11 thoughts on “É a cooltura, stoopid

  1. Comparar a Serra da Estrêla ao Kilimanjaro É Impossível ! Apesar de estar totalmente de acôrdo com o objectivo do artigo , a “comparação” feita pelo aluno , entre as duas cadeias Montanhosas é que acho estúpida . Seria o mêsmo que comparar Portugal e o Brasil só porque um é territorialmente muito mais pequêno que o o outro …
    Não são comparações que se façam , nem para nações , nme para Serras …não é o tamanho , nem os nºs que Definem o que é Maravilhôso e o que não é …pelo “raciocínio” do estudante , a Serra do Kilimanjaro é muito mais maravilhosa que a da Estrêla , porque é mais alta e fica em África …???!!!
    Que não se misturem alhos-com-bugalhos , seja na Cultura de Portugal , seja com Nações ou Serras …

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  2. O que este senhor conta neste artigo é uma absoluta mentira. Mas que, aparentemente, serviu bem o seu propósito.
    Este senhor, aluno absentista, por acaso um dia entrou na sala de aula num momento em que a professora esta a fazer uso da ironia. É minha colega, conheço-a bem e conheço poucos professores tão dedicados como ela.

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    1. Não conheço o autor da carta, nem a professora em questão. Não tenho razões para duvidar da dedicação ao ensino da sua colega, nem da veracidade do episódio relatado pelo autor da carta dirigida à directora do Público.

      Todas as histórias têm mais do que uma versão.

      Em causa neste post está a ocupação do espaço de debate público por figuras “menores” da cultura portuguesa, entendida na sua acepção mais lata, e não uma crítica a professores ou à Faculdade de Letras ( embora haja pano para mangas). Muitos portugueses reconheceriam na rua os participantes da Casa dos Segredos, mas não reconheceriam a Agustina ou Pedro Rosa Mendes (uma professora de inglês do 12 ano perguntou-me uma vez: é escritor? Mas o que é que ele escreveu? )

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  3. Comparar a Agustina Bessa-Luís a Pedro Rosa Mendes é que me parece um bocado parvo. Mais ainda tomar o desconhecimento da obra deste senhor como um pecado capital.

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    1. Em nenhum momento os comparei. A Agustina é única e o Pedro escreveu o melhor romance português da última década. A “Peregrinação de Enmanuel Jhesus” é uma obra magistral, logo o desconhecimento da sua existência (não digo a sua leitura, porque isso remeter-nos-ia para para outro plano) é para mim pecado capital. Poderá ser parvo, mas felizmente estou bem acompanhada na minha parvoíce.

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      1. Sem retirar o mérito ao autor, a apreciação que faz não justifica que se trate de leitura obrigatória para os outros. Estranha-se bastante é a crítica da tal professora de inglês – ou fez-lhe algum inquérito sobre os autores portugueses e estrangeiros que conhecia?… Mas como não conhecia o dito, coitada, deve ser muito ignorante. Que juízo mais apressado!
        Felizmente que o gosto pela leitura não se restringe a um panteão que é imposto ou socialmente valorizado.

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      2. Por acaso até fiz, não um inquérito, mas um questionamento e fiquei surpresa/estupefacta com os resultados.
        A minha questão essencial é a infantilização do espaço de debate e o excesso de tempo mediático atribuído a figuras “culturais” sem densidade.
        Não acredito em Panteões seja lá para o que for, todavia mantenho as minhas reticências sobre a utilização de uma revista de eventos sociais no ensino da língua.

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