“Estamos a atravessar uma zona de turbulências”

gimage.phpQuem não tiver a preparação física necessária para a correr a maratona de Nova Iorque não deve fazer viagens intercontinentais que tenham como ponto de partido o aeroporto de Frankfurt. A Alemanha não é maior que os Estados Unidos, porém em Frankfurt cabe à vontade todo o continente americano. Depois do check-in em A 336 ou em B 445 uns (sentidos) dez quilómetros separam-nos do controlo de segurança, eufemismo para striptease perante os semi-sorrisos de desdém das Valquírias e Valquírios do raio X. Schnell, schnell.

Parêntesis para não jornalistas: experimente explicar porque transporta dois telefones de satélite e um colete à prova de bala. Horas depois caminho do portão de embarque. Não sem antes ter atravessado o duty free, comprado um livro (como se já não tivesse excesso de peso) e traído a sua dieta com um cappuccino e um brownie (cada um tem a sua missão nesta vida e a busca do Apfelstrudel perfeito, ou do brownie perfeito, é, por um conjunto de razões que não vêm ao caso, uma missão nobre) e passado o controlo de passaportes. Mission accomplished. Acaba de desfalecer sobre a cadeira quando uma voz anuncia: “senhores passageiros vamos proceder ao embarque”.

Estrategicamente marcou o penúltimo lugar do avião (se por uma intervenção divina houver lugares vazios será aqui). Enfrenta a Business e os olhares superiores dos passageiros que desmaiariam diante de um hambúrguer com ketchup, imagine a reacção que teriam perante a comida servida em económica. Desfalece de novo na cadeira.

Apertado o cinto e aberta na página correcta a leitura de viagem, helás, o passageiro do lado descobre que lhe falta algo importantíssimo sem o qual a terra ficará impedida de girar. Inspira, expira.
Em momentos como estes momentos recordo-me sempre de uma crónica humorística do Veríssimo. “– Eu estou calmo. Calmíssimo. Você é que está nervosa e, não sei por quê, está tentando arrancar as minhas mãos do pescoço deste cavalheiro ao meu lado. Que, aliás, também parece consternado e levemente azul.– Calma! Isso. Pronto. Fique tranquilo. Não vai acontecer nada. – Só não quero mais ouvir falar em banco flutuante. – Certo. Ninguém mais vai falar em banco flutuante. Ele se vira para o passageiro ao lado, que tenta desesperadamente recuperar a respiração, e pede desculpas.”.

Outro episódio clássico das intercontinentais, para quem viaja em “classe económica”, eufemismo das companhias aéreas para “se num Mini cabem vinte pessoas, imaginem num avião que é muito maior”, é a ida à casa de banho. Filas de adolescentes que vão retocar a maquilhagem como se saíssem directamente das chegadas para os Globos de Ouro, mães à beira de um ataque de nervos (devia ser uma disciplina olímpica com direito a medalha a troca da fralda nas casas de banho do avião), aquele rapaz “alternativo” que levou consigo um exemplar do Ulisses. E quando está quase, quase na sua vez, uma voz: “senhores passageiros por favor retornem aos seus lugares estamos a atravessar uma zona de turbulência”.

Regressa ao seu lugar e o passageiro do lado, um armário de dois metros de altura, com o corpo de um jogador de rubgy, está lívido. “Pode dar-me a mão?”. Ai a minha vida. Contra todas as regras de contenção e previdência (e porque no fundo tem um coração de manteiga) aceita, com a consequência de não poder ler e de ficar com os dedos dormentes quase até ao fim da viagem.

Enquanto o avião estremece dá por si a pensar na vida e no seu aniversário, que por acaso foi em Outubro, o que agora não vem ao caso. “A gente tem um certo carinho pelo próprio aniversário. Afinal, é a data do nosso começo. Mesmo que não interesse a mais ninguém, nos interessa profundamente”, escreveu o Veríssimo (sim, é amor). Ora há uns tempos pesquisei quem são “os de 31 de Outubro” e o que de importante aconteceu nesse dia. Descobri que o Carlos Drummond de Andrade,”O mundo é grande e cabe/nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe/na cama e no colchão de amar./O amor é grande e cabe/ no breve espaço de beijar”, e o Dunga nasceram na mesma data. No finalzinho de Outubro Martinho Lutero pregou as suas teses reformistas (entre mim e a Alemanha e entre mim e os revolucionários sempre existiu uma afinidade ) e foi a 31 de Outubro que a Dilma foi eleita presidente do Brasil ( entre mim e o Brasil é um caso de amor). Também descobri que é o dia da Dona de Casa e o dia das Bruxas. Valha-me o deus do sentido de humor.

PS- O melhor episódio que vivi a bordo ( de um avião da Lufthansa) foi quando do cockpit se ouviu uma voz feminina.” Senhores passageiros daqui fala a comandante X, eu e a minha co-piloto Y desejamos-vos boa viagem. Ah, ambas tiramos carta de condução à primeira e as dificuldades de estacionamento estão quase resolvidas”. Valha-nos o deus do sentido de humor.

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2 thoughts on ““Estamos a atravessar uma zona de turbulências”

  1. Helena, uma crónica cheia de humor como sempre 🙂
    Só agora reparei como tenho andado embrenhado nas minhas fotos pois há tanto tempo que não passava por cá, e há aqui tanta coisa nova para ler!
    Desejo que tudo continue a correr bem, com poucos ataques de nervos 🙂
    Um abraço!

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