Hamburgo: quando a violência se transforma em causa

"Centro Cultural" Rote Flora
“Centro Cultural” Rote Flora

De repente parece que muitos acordaram para a situação de iminente descalabro que se vive em Hamburgo. As notícias dos confrontos violentos entre manifestantes da extrema-esquerda e a polícia a 21 de Dezembro, de que resultaram centenas de feridos, e o decretar de Gefahrengebiet (“zonas de perigo”) na cidade tiveram o condão de focar as atenções na cidade hanseática onde há muito que a tensão social tem vindo a escalar.

Desde sábado que zonas dos bairros de St. Pauli, Altona e Sternschanze estão sob controlo policial. Ao abrigo do estado de excepção, a polícia pode revistar e pedir a identificação a qualquer pessoa sem ter de justificar o motivo da suspeita. O tema dá pano para mangas e a sociedade civil alemã tem-se desdobrado em críticas ao “racial profiling” (leia-se pedidos de identificação sobretudo a homens negros e de aparência estrangeira ou com “ar de refugiado”) usado pela polícia. O argumento invocado pelo senador do Interior de Hamburgo, o social-democrata Michael Neumann, para defender estes controlos policiais é o primado da lei e do Estado de Direito.

Embora não seja a primeira vez que esta medida, que existe igualmente noutros Länder alemães é adoptada – a lei data de 2005 e foi aprovada devido à habitual violência que acompanhava os jogos de futebol em Hamburgo – difere de ocasiões anteriores por não se saber quando será levantado o estado de excepção. O que é um sintoma da gravidade da situação.

Vale a pena observar de perto esta questão. A violência (e o turismo de violência) da extrema-esquerda e de movimentos anarquistas há muito que torna inseguras determinadas ruas da elegante Hamburgo. Só para que se tenha uma ideia, segundo a Der Spiegel, a polícia mobiliza actualmente mais elementos para investigar os incêndios de viaturas em Hamburgo do que os disponibilizados para investigar as acções terroristas da RAF (Fracção do Exército Vermelho). Na última década quase dois mil automóveis foram incendiados, sendo o vandalismo justificado como “instrumento de luta ideológica”. Não há um 1 de Maio em que não se assista ao espectáculo de vidros partidos, caixotes do lixo, colunas de fumo negro de carros incendiados, vandalismo variado e muitos feridos. Meios injustificáveis caracterizam os próprios fins, olhe-se para qualquer ditadura.

Há vários meses que três temas aquecem os ânimos em Hamburgo: o debate em torno do centro cultural “Rote Flora” (um antigo teatro ocupado ilegalmente pela “resistência” da extrema-esquerda desde Novembro de 1989 ou seja há 25 anos e perto do qual a criminalidade associada ao tráfico de droga é muito elevada), a demolição das denominadas “Casas Esso” (complexo residencial perto de uma estação de gasolina) e discussões sobre o destino incerto de refugiados oriundos de Lampedusa e que correm o risco de ser deportados.

Neste caldo misturam-se as genuínas e meritórias preocupações com os direitos dos refugiados ( empurrados para a Alemanha pelos italianos com 500 euros no bolso e que tem sobrevivido graças a generosidade de muitos cidadãos de Hamburgo), o receio de não conseguir alugar o apartamento ou a loja ao mesmo preço  e a ilegalidade “autolegitimada” pela “motivação política” no caso do Rote Flora. Como um argumento é mais difícil de esgrimir que uma pedra o discurso bárbaro tem encontrado sempre ouvintes e cúmplices que acenam com a cabeça e repetem: isto não vai lá com conversa, passemos à agressão e de caminho tomemos uma cidade como refém.

De há muito que, por outras e variadíssimas razões, que os diversos Burgomestres de Hamburgo assobiaram para o ar ( a história explica) e desvalorizaram o cansaço  da população de Hamburgo – que não é apenas composta por marinheiros, hooligans, anarquistas e prostitutas – farta da violência na cidade . Desta vez poderá ser diferente, não há nada mais intragável do que a violência transformada em causa.

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