A Síria, a Guiné, a Guiné, a Síria

1.Tem dez anos, anda na classe de dança da minha filha mais nova, porém o seu olhar tem mais rugas do que a noite tem estrelas. Enquanto desapertam os laços de cetim dos sapatos de pontas a Matilde pergunta-lhe o que mais deseja para o Natal. Gelo. “Queria voltar a casa e que regressar não fosse perigoso”, diz timidamente. Quando se fala em perigoso na Síria, pense-se no inimaginável. Mais de onze mil crianças morreram desde Março de 2011. Gás, bombas, atiradores furtivos, frio, fome, medo. Se houvesse uma escala para os muitos infernos que existem no mundo, a Síria ocuparia um dos primeiros lugares.

A menina com o olhar enrugado tem um nome, que não vou mencionar, chamar-lhe-ei S., um rosto magro e bonito, cabelo escuro, e uma história de fuga e sofrimento que nenhuma criança de dez anos deveria ter. Pior, ela sabe que o mundo não se importa com a Síria e que a com a neve chegam as madrugadas de gelo e de medo.

S. é uma das muitas crianças sírias refugiadas em Bona (até ao final do próximo ano a cidade acolherá mais 500 refugiados sírios). Chegou à Alemanha ainda em 2011 e já fala um alemão quase perfeito. As condições nos centros de acolhimento não são as melhores, sobrelotação, défices de higiene, porém “consigo dormir quase toda a noite” e “brincar”.

Fomos em silêncio até casa. “Mami, lembras-te daquela história que me contaste do chá de pele de cobra[na Guiana Francesa junto às margens do Rio Oiapoque, que faz fronteira com o Brasil, acredita-se que uma infusão feita com pele de cobra torna as pessoas imunes à dor] ?Não há nada semelhante aqui na Europa?”. É um pensamento de uma simplicidade complexa. Tento explicar-lhe o que está em causa neste conflito. “Porque lhe chamas conflito? Não é uma guerra? Onde estão os americanos? E as Nações Unidas?”. Respondo que sim “é uma guerra” e que não compreendo essa hipocrisia a que se chama “comunidade internacional”. A Matilde não se conforma. É tão obstinada e magra como um ponto de exclamação ” Não é justo que os meninos sofram assim. Que morram antes serem adultos como tu. A S.contrariou as estatísticas temos de fazer alguma coisa. Vou escrever ao Putin”. Em alemão, numa letra irregular de criança, seguiu para o Kremlin o pedido: “Sr.Putin, em 1987, foi pedido ao presidente Gorbachev, “tear down this wall”, eu sou pequena e não tenho poder, mas queria tanto dizer-lhe: Sr.Putin ponha fim a esta guerra”. A Matilde não leu ainda o Drummond, porém se tivesse que a definir numa frase escolheria esta, “a cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca”.

Este episódio que se passou há uns dias era para ter ficado em privado não tivesse chegado ontem a Lisboa um avião da TAP, vindo da Guiné, com 51 adultos e 23 crianças, todas com um rosto, um nome, uma história e muita dor.

2.Há exactamente um ano escrevi aqui no Domadora o seguinte parágrafo: “o eterno destino dos princípios: embora todos professem tê-los, o mais provável é serem sacrificados quando se tornam inconvenientes. A constatação, tão verdadeira como dura, foi feita por Susan Sontag num ensaio sobre a coragem e a resistência”.

Portugal (e a Europa) tem a obrigação moral de acolher bem estes sírios, estas mulheres, homens e crianças que fogem ao indizível. Quem nunca esteve numa guerra dificilmente tem uma imagem suficientemente vívida do pesadelo. E dificilmente compreende a dificuldade em encontrar palavras que dissolvam a sombra que se instala.

Os dramas humanos, os Estados que colapsam, os conflitos na vizinhança, que se agravam perante a complacência das chancelarias e desinteresse geral, mais tarde ou mais cedo acabam sempre por nos bater à porta. Are we human?

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4 thoughts on “A Síria, a Guiné, a Guiné, a Síria

  1. Que post incrível, Helena. Vai directo, não à veia, mas ao coração dos muitos (eu acredito …) que ainda são humanos. Você diz tudo o que é possível dizer-se sobre esse drama, as palavras certas no tom certo que mostram o tamanho da injustiça que é sofrida por quem, só porque nasceu no lugar errado, não tem direito a um chão, não tem direito a nada. É insuportável de realizar, quanto mais de presenciar. Porque nos dá o tamanho da nossa impotência. Tanto sangue que o mundo derramou, vitórias sofridamente ganhas sobre o obscurantismo, séculos de luz e de razão, kilómetros de tratados, todos os direitos no papel, tantos livros, tanta poesia (tanta árvore decepada …), tanta arte, tanto amor … e nada. Curiosamente, aqui chegados, eu acho que, salvo casos patológicos, cada um de nós, enfim, o homem, criou uma consciência importante, reage com emoção e generosidade, é solidário, capaz do melhor. Mas a humanidade, no seu conjunto, ou no seu “comando” sem rosto, quando desagregada do seu próprio comando individual, é, ainda a barbarie, a resposta automática ao medo e à defesa do seu confortozinho. Are we human? Parabéns, Helena!

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