Eutanásia para crianças?

eutanásia

Há uma década a imprensa alemã publicava uma série de artigos que retratava a fuga de idosos holandeses para lares alemães. O que motivava o êxodo não eram as melhores infoestruturas na Alemanha, mas o medo. O medo da eutanásia a pedido da família.

Uma reportagem da Der Spiegel, de 2004, citava um estudo do governo holandês segundo o qual 38 por cento dos casos de eutanásia no país, desde aprovação da lei em 2002, se deviam a pedidos de familiares “que não suportavam a situação”, os pacientes, em todos em estes casos, não foram consultados.

A Lancet escreveu por diversas vezes ser comum em hospitais holandeses encontrar pacientes com um “Credo Card” (onde se expressa o desejo de viver) ou uma simples folha de papel com o pedido: “Maak mij niet dood, Dokter.” (Doutor não me mate).

Histórias como estas mexem com os medos e as convicções profundas de cada um de nós. Quer no direito, quer na filosofia, podemos discutir o que faz de uma vida uma vida. Porém, como argumentar no caso dos que vivem à margem da vida, na fronteira ténue entre a vida e a morte, mas estão vivos?

O que nos torna humanos não é a diferença marginal de material genético que nos separa dos chimpanzés ou termos um polegar opositor. O que nos torna humanos, pessoas, é capacidade de nos colocarmos na pele do outro, o amor e a dúvida.

A medicina ainda não consegue responder com certeza à questão se um doente terminal ou em coma profundo tem algum nível de percepção sobre o que se passa ao seu redor. Nem o médico, nem a lei, nem os amigos, nem a família – mesmo que seja difícil suportar uma dor que não acaba – têm o direito de decidir sobre o momento da morte.

Embora discorde da eutanásia, por um conjunto variado de razões, consigo admitir em casos excepcionais que essa decisão, terrível, que essa escolha, possa ser feita pelo paciente. A minha posição não assenta no respeito por uma liberdade fundamental, porque não considero a escolha da morte como uma liberdade, mas sim numa tentativa de vestir a pele do outro num momento de desespero e sofrimento absolutos. Isto desde que a decisão seja tomada por um adulto e após um período longo de reflexão.

Na próxima semana o Parlamento belga votará uma alteração à lei da eutanásia, de 2002, que permite que crianças e adolescentes possam optar pela eutanásia em caso de “sofrimento físicos insuportável, doença incurável ou em fase terminal” e com a aprovação dos pais. Esta alteração legal torna(rá) a Bélgica o primeiro país do mundo a acabar com o limite de idade para a eutanásia.

A medida faz deslizar as responsabilidades dos ombros da medicina, do sistema de saúde e do Estado  – a medicina paliativa é muito cara e os jovens e crianças terminais são em muitos casos “excelentes doadores de órgãos” (sic)  – para os das crianças e adolescentes, que não têm o direito a votar, nem o direito de se casar, nem sequer de conduzir  mas têm “o direito” de escolher a morte.

Alguém imagina o que vai na cabeça de um menino ou de uma menina que sabe que a vida se lhe escoa pelos dedos  e que sabe também como a sua própria  dor  magoa pais, mães, irmãos. Alguém imagina o provável resultado de um cocktail de desespero e altruísmo?

Esses meninos e meninas que nunca subirão ao cume do Nanga Parbat, nem comporão uma sinfonia, nem pilotarão um avião, nem queimarão bandeiras americanas em manifestações, esses meninos e meninas comuns,” sem história”, têm o direito à graça da vida. Por mais injusta, por mais cruel que esta seja.

Que nesta Europa, que se presume de humana e humanista, se aprove uma lei de eutanásia para crianças é obsceno. Não. Obsceno não é qualificativo suficiente: é criminoso.

PS- A História, ainda tão recente, fez os alemães colocarem como artigo primeiro da sua Lei Fundamental “a dignidade da vida humana é intocável”.

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7 thoughts on “Eutanásia para crianças?

  1. Aplaudo de pe e comovida, com um amargo na boca. Este postal nao deveria nunca ter tido que ser escrito e comentado; nao deveria nunca ter tido razao de ser. Faco minha a sua revolta…

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    1. Depois de aceitarmos a morte de crianças terminais, depois de se legalizar a selecção embrional e o aborto de crianças deficientes passada a 22 semana de gravidez, interrogo-me e inquieto-me sobre o que poderá seguir-se. A proximidade entre esta “ideologia” libertária e o nacional-socialismo é aterradora.

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    1. Este tema é muito complexo e doloroso. Nos adultos, embora com muitas reticências, ainda concedo, mas as crianças? Confrontar a criança com a sua possibilidade da escolha da sua própria morte? Por mais que tente racionalizar, empatizar, não consigo aceitar, não consigo mesmo.
      O que mais temo com esta legislação é que banalize a morte selectiva e se abra uma caixa de Pandora.

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