O velho de Bona

Mafalda 3

Há uma tira da Mafalda que dizia ” e não é neste mundo há cada vez mais gente e cada vez menos pessoas?”. Entre o ser gente e o ser pessoa basta às vezes um pequeno gesto. Ou um olhar.

Esta tarde passei por ele numa rua de Bona. Não numa rua qualquer, mas numa das ruas mais aristocráticas de Bona. Era um sem-abrigo, um homem velho, frágil, com um casaco azul eléctrico. Caminhava, apoiando-se num carrinho de supermercado, parecendo prestes a cair a cada passo e a cada passo ajeitava o casaco, uma réstia de vaidade nele, a preocupação de ocultar (de esquecer?) a vida na rua. Nesse bailado sem coreografia revelava a fralda geriática e a fragilidade de todos nós. Passando por eles um grupo de adolescentes comentou “olha aquele, olha o Loser” e desataram numa gargalhada trocista. A pequena crueldade, a maldadezinha não vem nos noticiários, nem é partilhadada no facebook ou no twitter como as fotografias que espicaçam a consciência, mas é um seta espetada na pele.

Dirão os mais cínicos, do conforto da suas poltronas e que nunca estiveram perto de uma tragédia ou de uma vida destroçada, que elas pouca influência têm. Como escreve Susan Sontag “nomear um inferno não é, naturalmente, dizer alguma coisa sobre como moderar as chamas desse inferno. No entanto, já parece ser bom o facto de dar a conhecer, de ter alargado, o sentido que as pessoas têm de quanto sofrimento existe no mundo que partilhamos com os outros”.

Zanguei-me com os miúdos, disse-lhes que também eles um dia serão velhos. Pedi-lhes para olharem aquele homem nos olhos, como um ser real e não virtual, para se deixarem transformar por aquele ser humano. Disse-lhes que nada lhes assegura que não serão eles a quase tropeçar a cada passo. Disse-lhe que na vida a única coisa que temos por garantida é o seu fim. “Que tal serem pessoas?”, perguntei-lhes. Ouviram-me com espanto e viraram-me as costas, em silêncio.

O velho esboçou um sorriso, deixou escapar um “Dank” baixinho e continuou a caminhar ajeitando o casaco como quem ajeita a vida.

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3 thoughts on “O velho de Bona

  1. Que prazer é vir por aqui baixo ler o que escreve, Helena. O prazer que advém do humanismo das palavras e das emoções, das suas, claro, face ao resto que é tão cruel. E a constatação de que as viagens físicas, o explorar, só nos podem tornar melhores. Ver é sentir…

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