Pecados a norte do Equador

Oleiro de Vila Vintém. @HFG Novembro 2013
Oleiro de Vila Vintém. @HFG Novembro 2013

1.É tentador acreditar que esta história acabou. Não acabou. Em Roraima o Brasil de há cinco séculos anos acontece agora. Em tempo real. Longe dos ecrãs da televisão. Um dos capítulos mais fascinantes da história do país perde em atenção para qualquer capítulo de uma produção da Globo. Roraima é um lugar que nos muda, e não existem muitos por aí.

No ínicio do mapa brasileiro disputa-se a última guerra entre brancos e índios, travam-se escaramuças várias entre índios e índios, e, em pleno século XXI, a colonização prossegue. A um dos mais jovens estados da federação brasileira chegam milhares de migrantes por mês. A maioria oriunda do Maranhão. Como J.

Aos 33 anos o que J. mais queria na vida era voltar a ver o filho, que “ficou lá com a mãe dele”. Coberto de barro, com pés descalços, passa as costas da mão pela testa onde se desenha uma filigrana de rugas precoces, factura das muitas horas passadas ao sol.

J. é um homem que tem vergonha de falar, mal ergue os olhos, a voz é esculpida por uma humildade tão antiga como o Brasil, “desde os seis anos que sou oleiro, a gente se conforma com pouco, mas quando penso no garoto sinto uma rosca apertando meu coração. Tem quase quatro anos que não o vejo”. A chama dos olhos é extinta pelas lágrimas. Mergulha as mãos na argila e dá forma a um novo tijolo artesanal.

Ali em Vila Vintém, perto da ponte dos Macuxi, na margens do Rio Branco, o barro é ouro, alimenta o sonho de uma casa a que se possa chamar sua, de um carro usado, de um horizonte para além da roça, de uma mala que contenha mais que a poeira da estrada. Não é pouco.

Quando as águas transbordam as margens as cerca de duzentas famílias de oleiros fazem um parêntesis no fabrico de tijolos, vivem de biscates, ou da pesca. A ameaça maior para os oleiros de Vila Vintém não são os humores do Rio Branco, rio que sozinho abriga mais espécies que os rios da Europa combinados ou a Amazónia não fosse o éden, a ameaça é a construção de uma hidroeléctrica. Never ending story.

“Não há dias comuns em Roraima”, escreve Eliane Brum.

Como os poderia haver neste canto remoto que colecciona alguns dos títulos mais singulares do Brasil: é o estado mais despovoado (o que explica que os candidatos a inquilinos do Planalto não o visitem), o mais indígena (mais de metade do seu território são Terras Indígenas, onde vivem 30 mil índios Ingarikó, Macuxi, Mayongóng, Taulipang, Wapixana, Atroari, Yanomami, Waiwai) e o mais isolado. Quando a noite cai Roraima fecha como uma ostra. Por terra, ninguém sai, ninguém entra.

Como poderia haver dias comuns no lugar onde cresce a floresta proibida dos Yanomami, com as suas árvores eternas, onde se despenham quedas de água paradisíacas, onde os rios acolhem sucuris gigantes e as onças ronronam no breu das noites sem estrelas?

As cosmogonias são belíssimas e a morte algo sagrado. Os mortos Yanomami depois de cremados e da cerimónia do reahu são ingeridos com mingau de banana. Para que os mortos tenham paz, são ingeridos, num canibalismo metafórico, pelos familiares. Por cada morto em combate há obrigação de vingá-lo. Por cada índio que tomba numa guerra, outro tombará em seguida. Antropólogos descrevem rituais de canibalismo, como o unokai, em que o homicida se une à sua vítima, libertando-a e condenando-se a si, ao ingerir pedaços putrefactos do cadáver. Entre os Yanomami as diversas guerras são a segunda principal causa de morte. E as armas não tradicionais chegaram ao útero da selva com os garimpeiros. Desequilibrando os conflitos.

2. Ao contrário do que diz a canção de Chico Buarque ao norte do Equador há pecados sim. É muitos.
É tentador acreditar que esta história acabou. Não acabou. As conquistas das comunidades indígenas na Raposa Serra do Sol, reconhecida pelo governo Lula em 2005, estão sob ameaça constante e o assalto à Amazónia prossegue.

A Terra Indígena Raposa Serra do Sol está localizada, na região da fronteira tripla Brasil – República Cooperativa da Guiana – República Bolivariana da Venezuela. Distribuídas por 1,7 milhões de hectares (12 vezes o tamanho da cidade de São Paulo e 7,7 por cento do estado de Roraima), existem 135 malocas (aldeias indígenas) regidas por tuxauas. As maiores malocas são a Maloca da Raposa, Contão, Contão Galo, Serra do Sol, Manalai, Karamambataí, Maracanã e as de nomes improváveis nestas coordenadas geográficas, Napoleão e Bismark

De Boa Vista até Camará, no coração da Raposa são muitas horas de estrada, areia, mata. Atravessando cursos de água, desbravando caminhos onde eles não existem, sendo subjugados pela paisagem e vendo de perto as marcas (pontes queimadas) de um conflito, que apesar da demarcação, ainda não acabou.

Fomos recebidos calorosamente na Maloca pelos Macuxi e a congregação da Consolata (que tem um trabalho extraordinário nesta região e muito contribuiu para para causa indígena) cedeu-nos um tecto de palha e onde amarrar as redes. Adormeci ao cair da noite embalada pelos ruídos da floresta e despertei com o chamado do Tuxaua para o café da manhã: Damurida (ohmmm), mingau de arroz, cuscuz e café com leite gordo.

Sem internet, sem televisão, as prioridades realinham-se e a definição de urgência ganha outros contornos. Aqui a medição do tempo diverge da habitual. Mede-se em pequenas doses e gradientes de poder ser feliz com pouco. Mede-se do sol a rasgar o horizonte e até poente. Depois é a noite de veludo negro.

Esqueço que vivo numa época em que tudo é urgente. Em que o tempo do outro se torna quase por direito o meu tempo e vice-versa. A comunicação potenciada pela tecnologia e pelas redes sociais, dá-nós uma sensação de ubiquidade, quase poder. Como se o mundo não girasse se nós não estivermos disponíveis para o chefe, o marido, os filhos, os maridos. Foram dias de liberdade sem a pressão do ” ich muss nur kurz die Welt retten”.

Das muitas dádivas da Raposa Serra do Sol a talvez a maior tenha sido a redescoberta do meu tempo. Tempo não é dinheiro. É muito mais.

Sem o apoio da FUNAI teria sido impossível visitar a Raposa. @HFG Novembro 2013
Sem o apoio da FUNAI teria sido impossível visitar a Raposa. @HFG Novembro 2013
Índios Macuxi na Raposa Serra do Sol.@HFG Novembro 2013
Índios Macuxi na Raposa Serra do Sol.@HFG Novembro 2013
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Raposa Serra do Sol. @HFG Novembro 2013
Raposa Serra do Sol
Raposa Serra do Sol. Havia uma ponte no meio do caminho, no meio do caminho havia uma ponte. @HFG Novembro 2013
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Canos no Rio Uraricoera.@HFG Novembro 2013
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2 thoughts on “Pecados a norte do Equador

  1. É lindo conhecer esse Brasil virgem contado por si, Helena! A história mais próxima dessa Amazónia profunda, que me lembro de ter lido, foi o “Velho que lia romances de amor” do Sepúlveda.
    Cumprimentos 🙂

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