Damurida, caxiri, parixara: aventuras na Malacacheta

Tento imaginar um pouco do que me espera na Serra da Lua para encaixar a primeira impressão da carrinha que nos vai levar de Boa Vista até à comunidade indígena de Malacacheta. Inspira, expira. Hit the road.
Era uma manhã azul. O relógio não tinha dobrado as sete horas e o sol já arde. Está sempre muito calor nestas terras de Macunaíma. Lentamente vamos percorrendo os quarenta quilómetros entre a capital de Roraima e a Malacacheta. Zfmmm,plof, plop. A carrinha imobiliza-se. A luz da bateria acende. O motorista consegue voltar a ligar o motor. Zfmmm, plof, plop. Paramos duas, três, quatro vezes. O motor despede-se.

Malacacheta. @HFG. Novembro 2013
Malacacheta. @HFG. Novembro 2013

Minutos depois pára uma pick-up. Boleia para dez? Não há problema. Lá vamos nós pela estrada aos trancos e barrancos, como dizem os brasileiros, na caixa aberta. Desembarcámos. Sacudimos a poeira. Saudamos o tuxaua (cacique ou chefe) e entramos na aldeiazinha onde o festival cultural Wapichana (um dos muitos povos indígenas brasileiros) decorrerá. Igreja católica à direita, igreja evangélica mais frente, e logo a seguir a escola, onde se ensina o português e se procura resgatar a língua Wapichana.

Nos pequenos “quiosques” de madeira pintada de verde, com telhados trançados de buriti, vende-se artesanato, farinha de milho, malaguetas coloridas, picolé de buriti (gelado). Vale a pena entrar para ver os cozinhados em enormes panelas de cerâmica. Detalhes mais adiante, porque antes houve a defumação da Maloca (casa comunitária) com Maruai (ervas sagradas) feita pela pajé (curandeira).

 Malacacheta. @HFG. Novembro 2013
Malacacheta. @HFG. Novembro 2013

Elas e eles estão de saia de palha e cocares coloridos de penas de arara, papagaio e outros pássaros nativo. Tranças lustrosas, rostos pintados. Índios e índias de todas as idades dançam o parixara. Dançam o prazer de viver. “Guardar uma coisa é olhá-la, mirá-la por admirá-la, isto é/iluminá-la ou ser por ela iluminado”, ensinou-me o poeta brasileiro António Cícero e ensinou-me também que “melhor se guarda o voo de um pássaro/ do que pássaros sem voos”.

 Malacacheta. @HFG. Novembro 2013
Malacacheta. @HFG. Novembro 2013
 Malacacheta. @HFG. Novembro 2013
Malacacheta. @HFG. Novembro 2013

Desconfio de pessoas que não gostam de comer. É como se estivessem amputadas. Apreciar a comida é poesia. É passear pelos mercados, ouvindo pregões e escolhendo maçãs vermelhas e sumarentas. É cheirar o ananás e entrar nas lojas turcas para comprar especiarias e coentros. E os pormenores são a substância. É momento de me iniciar na Damurida. Para a mesa veio um prato fundo. Nele boiava num caldo castanho, aromático e fumegante, peixe e muitas malaguetas coloridas. Fogo que arde e que se vê. Um gole e mundo mudou. A boca fica anestesiada. Os índios comem Damurida, que pode também ser preparada com carne fumada, jambu e tupucupi, acompanhada por beiju e caxiri (bebida fermentada à base de mandioca). Levo comigo levo o infinito de certos momentos ( e a língua dormente).

 Malacacheta. @HFG. Novembro 2013
Malacacheta. @HFG. Novembro 2013
Damurida. @HFG. Novembro 2013
Damurida. @HFG. Novembro 2013

 

PS- De Malacacheta segui para a Raposa Serra do Sol. Em breve escreverei sobre essa viagem.

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