Um caso de amor com o Brasil

Quarenta e duas horas de Bona a Boa Vista. Com direito a avião atrasado, conexão perdida, escala forçada em Manaus – que me permitiu uma passagem pela Saraiva e a recompensa da descoberta do livro “As Cem Melhores Crônicas Brasileiras”- e voos de madrugada.

À medida que o cansaço da viagem se acumulava, que as horas de sono iam diminuindo (ou não existiram) íamo-nos revelando mutuamente. E se eu já pressentia, confirmou-se. A I. que me acompanha nesta viagem revelou-se uma daquelas pessoas cheias de luz, com as quais podemos rir quando aparentemente nada há para rir, trocar um olhar e entender-nos sem palavras.

Quando comecei a trabalhar em jornalismo e mais tarde cooperação e desenvolvimento fi-lo para viajar para além do meu pequeno mundo ocidental, europeu. Devo a estas viagens muitos novos amigos e a capacidade de deslumbramento que tornam a recompensa sempre maior do que qualquer incomodidade.

O regresso a Boa Vista é um reencontro: com o suco dourado de taperebá, com o sol a chicotear a pele logo nas primeiras horas da manhã, com a luz translúcida, uma evocação de Lisboa aqui tão longe em Roraima, e com pessoas de quem gosto muito. Mulheres e homens de decidida textura, unidos pela causa da Amazónia e dos seus habitantes. Jornalistas, permanentes grilos falantes, que fazem a diferença pela sua entrega e pelo gosto em contar as histórias dos que não têm voz.

Não me recordo de quem escreveu que é na fragilidade e no mundo que nós encontramos e percebemos. Está viagem está a ser um pouco assim.

Confesso que foi a contragosto que aceitei passar o meu aniversário fora de casa, longe da família. Foi a primeira vez que o fiz e estava um pouco melancólica, quase triste. Não por avançar mais um ano nos “entas”, nem por tentar como a Wendy do Peter Pan estender a juventude para além do prazo, mas por o meu “eu” criança gostar de festejar (e muito) a dádiva da vida.

No dia do meu aniversário quando cheguei à Rádio encontrei-a enfeitada com balões e os jornalistas de chapeuzinhos na cabeça. Sobre a mesa: bolo de chocolate com cobertura de brigadeiro, bolo de cenoura com cobertura de brigadeiro, brigadeiros. E não há palavras para descrever a vertiginosa aceleração interna que o abraço – não há quem abrace como os brasileiros – de todos eles me provocou. A amizade é um privilégio, um sentimento tão denso e superior que o devíamos celebrar diariamente. Valeu amigos da RNA e da Monte Roraima FM.

Como escreveu a Inês Pedrosa, “amigo são os que não nos deixam viver abaixo do nível dos nossos sonho”, mas sobretudo os que nós abraçam quando nos sentimos sós.

O meu caso com o Brasil? É um caso de amor.

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