Ai a tradução, a tradução

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Esta é a pequena história de alguém (leia-se eu) lost in translation, vulgo à beira de um ataque de nervos.

A tradução: É sabido que a tradução é algo complexo e que os tradutores suam estopinhas para conseguir respeitar o pensamento do autor ou para descodificar expressões idiomáticas. O caso fica ainda  mais bicudo quando palavras supostamente unívocas e sinónimas têm sentidos diferentes. Eu explico: se perguntar a um suíço ou a um alemão que tenha aprendido português como se traduz “amanhã” eles responderão com precisão de um relógio atómico: “morgen”. Contudo, a palavra” amanhã” (e a sua gémea castelhana) para um brasileiro (ou argentino) tem muitíssimos significados. Como escreveu o João Ubualdo Ribeiro “‘amanhã’ significa, entre outras coisas ‘nunca’, ‘talvez’, ‘vou pensar’, ‘vou desaparecer’, ‘procure outro’ e em casos excepcionalíssimos ‘amanhã’ mesmo”. É preciso um quase doutoramente em hermenêutica para captar o sentido de “amanhã” proferido com a descontraída simpatia brasileira (ou argentina). Os “amanhãs” casuais dos brasileiros (e argentinos)são verdadeiras questões metafísicas semelhantes às interrogações clássicas “se existe Deus” e “onde posso encontrá-lo” (no Brasil, where else, dirão os meus amigos brasileiros, bem mas o Papa…). O poeta diria que a vida é um eterno amanhã. Estou tramada.

A factura: Para um alemão uma factura é acto burocrático simples e exacto. Os alemães gostam tanto de exactidão como de preposições (basta ver a quantidade exasperante destas na língua alemã). Agora imagine trabalhar numa instituição pública alemã e ser responsável por projectos na América Latina.  Estou tramada.

Às vezes tenho a impressão de fazer perguntas ininteligíveis do género: seria possível enviar-me uma factura  até X, às X horas para que o nosso departamento de contabilidade  possa efectuar a transferência internacional? A estes emails segue-se geralmente um interlúdio mais doloroso que o da Traviata. Até que (eventualmente) chega um email que nos liberta da tortura.Ohmmmmm.

Assim anda a minha vida. Lost in translation.

Note to self: Bem dizia o Tom Jobim que “o Brasil não é para principiantes”.  Vou ali “cair de boca” sobre os brigadeiros* que tenho no frigorífico e já venho. Bem, venho daqui a três semanas. Depois de dar um pulinho  ao  Brasil (mon amour) e à Argentina.

* Como é sabido a melhor cura para as crises nervosas são os brigadeiros.

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