O Prémio Leya

A minha vida anda tão aborrecida como a formação do governo alemão. Alguém já experimentou “a coligação governamental de Berlim” como tema de conversa? Bem, a conversa entra em rigor mortis.

Estava em posta no meu “Ennui”, ao cabo de dias de confinamento em seminários e gabinetes, com manifesta falta de tema consistente e interessante para escrever, quando resolvi dar uma volta  pelos meus blogs preferidos, muitos deles têm matéria literária suficiente para um bom romance [com alguns fiz uma verdadeira amizade e por eles  aproveito todas as paragens nos semáforos e nas filas de trânsito que me esperam ao virar da esquina para me actualizar]. Não preciso de explicar as vantagens de estar no meu sofá em Bona e de ter o mundo (ou Berlim) e boa escrita à distância de um clique.

Sigo da Avenida da Liberdade bloguística para a Praça da Figueira  virtual que é o Facebook e encontro-a em alvoroço. Confesso que  prefiro o Facebook em alvoroço do que cheio de gatinhos. Note to self:  sim eu sei  que que os gatos são um tema literário inesgotável, que Fernando Pessoa, T. S. Eliot, Rainer Maria Rilke, Ezra Pound,  Alexandre O’Neill, Pablo Neruda, Lewis Caroll, entre tantos outros tiveram amigos felinos e escreveram sobre gatos. But sometimes it’s all just a little too much, right?

Bem, estou-me a dispersar. Onde é que eu ia? Ah, no alvoroço. Pois. No meu círculo facebookiano discutiam-se três temas. O primeiro era o discurso do presidente angolano  que, por ausência de um único pensamento altruísta acerca de JES,  me abstenho de comentar. Centenas de likes e dislikes suscitava a entrevista polémica dada por Gabriel Mithá Ribeiro, na qual  defendia um maior autoritarismo dos professores e o regresso da disciplina às escolas (embora não esteja de acordo com tudo o que foi dito, há muito de verdade nas suas palavras e de facto alguns estabelecimento de ensino portugueses são tão perigosos como os da Bronx ). Por fim, grande agitação causou a vencedora  do Prémio Leya. Como dizia o iluminista Abade Correia da Serra, “Dentro de cada português, mas dos puros, vibra a alma d’um familiar do Santo Ofício”. Gabriela Ruivo Trindade –  a primeira mulher, em seis edições, a vencer o Prémio Leya, com a obra “Uma Outra Voz” – foi quase ultrajada, com um gozo bestial e um snobismo de baixa costura, diga-se de passagem por mulheres e homens das “Letras” portuguesas, sem que ninguém lhe conheça o romance que mereceu o prémio. E porquê? Porque o seu blogue estará cheio de “frasezinhas e de literaturazinha”(um dos comentários “elevadíssimos”que li). Caramba. Dou por mim praguejar. Como se bons escritores nunca tivessem escrito maus livros, ou como se um simples blog fosse suficiente para aferir o grau de pureza literária de  um autor.

Retiro-me do Facebook com uma certeza: vou comprar o livro da Gabriela. A inveja nunca me deixa indiferente, aliás é a emoção humana que mais  me perturba. Prefiro uma pessoa boa, a uma pessoa inteligente.

PS-  Caro leitor se concorrer a um prémio literário (e  principalmente)se o vencer não se esqueça de apagar os posts do Facebook e o seu blog. Porque o Homo Literatus facebookiano, por detrás dos seus óculozinhos de tartaruga e de Cânone literário em punho, está pronto a abrir hostilidades com uma força incontrolável.

Acho que vou por uns likes numas fotos de gatinhos.

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5 thoughts on “O Prémio Leya

  1. Cara Helena Ferro Gouveia
    No que me toca e como visitante habitual deste espaço, também estou de acordo com a minha entrevista, mas não com tudo. Numa conversa de mais de duas horas a jornalista, Kátia Catulo, seleccionou o que pretendia e compôs como bem entendeu. É com ela. O problema é que o título é falso «Estou fisicamente preparado para actuar se um aluno desobedecer» pelo simples facto de não leccionar desde 2010. Jogar com os tempos verbais é um pouco «esquisito». Por outro lado, a jornalista cita factos de 2001, sobre um livro de 2003 (onde isso já vai…), como se fossem de ontem ou de hoje, além de serem episódios absolutamente laterais à nossa conversa, com tanto que ela tinha por onde escolher. Era o que eu pensava. E como técnica para vender abre e fecha a entrevista com violência transformando-me num Schwarzenegger de sala de aula. Não sei se isto é «jornalixo», mas pelo menos gostaria que servisse para discutir a indisciplina nas escolas com olhos de ver, que o tema pegasse para além do lugar-comum habitual. De resto, sobre o tema, vou escrever por mim mesmo no DN de sábado, assim como participo num debate online sobre o tema no site da Fundação Francisco Manuel dos Santos durante toda esta semana.
    Com os melhores cumprimentos,
    Gabriel Mithá Ribeiro

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    1. Muito obrigada pelo seu esclarecimento Gabriel. Lerei atentamente a sua posição no DN.
      Eu conheço bem as rotinas de produção jornalística e também estou consciente que nem sempre a necessária acuidade e isenção (por um conjunto de razões) preside à escolha do conteúdo que será incluído no artigo.

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  2. Caro Prof. Mithá Ribeiro,
    É com espanto que leio neste comentário considerações pouco rigorosas àcerca do meu trabalho. Em primeiro lugar, o título respeita o tempo verbal e felizmente ainda tenho comigo a gravação da entrevista para poder comprovar esse facto. O que pode lamentar é o facto de o título ser redutor, mas isso são contigências de todos os títulos de jornais, que infeizmente não conseguem transportar todo o contexto que envolvem.
    Em segundo lugar, tem razão quando diz que retirei da entrevista de duas horas as partes que considerei mais relevantes, mas isso, ao contrário do que diz, não é um exercício de jornalixo. É sim exercício perfeitamente normal para quem é jornalista e usa critérios jornalísticos.
    O que importa reter aqui é que nada da entrevista foi adulterada. Lamento ter de ler acidentalmente num blogue críticas que considero pouco fundadas sobre o meu trabalho. Compreendo que entrevista tenha causado algum impacto e incómodo junto de muita gente porque teve a coragem de assumir posições politicamente incorrectas. As ideias quando ficam escritas preto no branco têm sempre grande impacto, mas penso que já deveria estar preparado para isso.
    Atentamente,
    Kátia Catulo

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    1. Minha cara, a sua «composição» da entrevista resvala para o mais tacanho estereótipo do preto: ou não pensa e é «manso» ou pensa e é violento. Claro que estou preparado para isso.

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  3. Lamento não ter coragem de assumir o que disse. Lamento que use uma suposta composição minha para justificar o que disse. E lamento também que tenha resumido tudo a uma contigência racial. Seria quase ofensivo, tendo em conta também a minha condição de minoria étnica e a minha hiper sensibilidade para estes temas. Como disse, seria quase ofensivo, mas não chega a ser pela pouca consideração que neste momento tenho por si. Acredite se quiser: fiz o meu trabalho. Só isso.

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