Catembe-Maputo: isto é uma história de mulheres

Não é fácil tocar-lhe no verdadeiro rosto. É uma cortesã envelhecida, feita de contrassensos. Deslumbrante e amarga.
Maputo é uma mulher suspensa a quem cabe a resignação de esperar, sem saber por que e pelo que se espera. Qual a vida que se imagina quando as esperanças se desvanecem a cada manhã?Maputo não se percorre com o à-vontade de cidades africanas como Bissau. Há aqui uma violência epidérmica que vem de longe e se torna cada vez mais visível.
Na coreografia da cidade o espaço é fatiado entre o cimento, onde uma flat pode atingir 4,5,6 mil dólares, e a chapa ondulada, metálica, cortante, feita de silêncio e de uma vida nas sobras do urbano.

A revolta popular de Setembro de 2010 e os seus mortos revelaram as assimetrias de um país em que mais de 90 por cento da população vive com menos de dois dólares por dia. Dolorosas a estatísticas mostram que de metade dos habitantes de Maputo é pobre. Leia-se miserável. Sem água, electricidade e a certeza de uma refeição. A infalível upswa (xima) e o “se não fosses tu” (repolho) não são, para demasiados, mera memória distante da guerra civil. É neste caldo que fervilha a próxima revolta. O sismógrafo regista os primeiros abalos.

Cansada de uma semana na capital quis conhecer a outra margem, a que via diariamente da esplanada do Hotel Cardoso. Já na época colonial a Catembe era margem, geográfica e metafórica, de Lourenço Marques. Vila piscatória e de feiticeiros, inspiração do filme mais censurado na história do cinema português (“Catembe”de Faria de Almeida, documentário ficcionado que é um dos primeiros olhares disruptivos sobre o colonialismo português). Embarquei com a A. (que desafiei a acompanhar-me) no Bagamoyo, batelão que desafia a lei da resistência dos materiais, ou que a testa a cada travessia da baía. Esmagadora a vista panorâmica da cidade. Rasgada por gruas amarelas e pela promessa de progresso em forma de prédios de muitos andares.
À chegada a Catembe, pés descalços, trouxas à cabeça, pó, pilhas de fruta na berma. Caos colorido e previsível. Negociamos um chapa. 250 meticais pelo luxo único de um banco sem suspensão numa picada de terra batida. Ruínas, machamba, gado. O restaurante Marisol, lendário como a própria Catembe, não desilude. Conta-se que o próprio Samora Machel terá almoçado lá a caminho do exílio. Há várias Catembes dentro da Catembe.

Maputo vista da Catembe parece uma recompensa. Quotidiano agreste, violento, nos limites? Tomai-lá a Praia dos Amores e Maputo na outra margem. Brindámos à vida e à amizade com uma Laurentina, a mais premiada das cervejas moçambicanas, que um mestre cervejeiro alemão criou por encomenda de um empresário grego, George Cretikos.

Levanta-se vento, na baía as águas encrespam-se, encapela-se a picada em ondas vermelhas de poeira e areia. Impõe-se o regresso. O nosso e o dos muitos que aproveitaram o fim de semana prolongado para atravessar para a Catembe. O batelão enche, enche, enche, enche. Sobre nós não planam abutres como na Amazónia, mas poderiam. O batelão arranca, estamos molhadas até aos ossos, num navio tão cheio, o fio de segurança que resta é seguramos-nos na beirada. Batelão bate contra o cais, boooomm, volta a embater, numa trovoada metálica assustadora.”As cordas, as cordas”, grita-se. Nenhum marinheiro tinha solto as amarras, os motores puxavam em força bruta num desafio de titãs. Soltas as amarras começa não a liberdade, mas o pesadelo. Duas mulheres brancas, a cor da pele é neste contexto importante, vivem a sua própria solidão. Um bêbado assedia a A. agarra-a pela cintura, passa-lhe as mãos nas nádegas, um louco passa-me as mãos pelo cabelo, uma e outra e outra vez, pousa a mão pesada, quase uma garra, nos ombros. Consigo libertar-me e ele parece desistir. A A. tem menos sorte, o abuso prossegue. Ao nosso redor grupos de homens e mulheres observam o espectáculo, saboreiam o nosso medo com um esgar de desdém. Putas brancas lia-se nos olhos duros.
Além do P. mais ninguém parecia estar a ver. “Estão a ser incomodadas? Ponham-se atrás de mim”. Enfrentou a turbe. “Eu tenho a minha identidade no bolso e não quero que os estrangeiros pensem que os moçambicanos são todos assim”. Punhos e uma vozoeiria ergueram-se. Boommm. Atracámos em Maputo. “Sou pastor da Igreja do Nazareno”, diz, “já não é a primeira vez que dou um soco aqui. Ainda no domingo passado alguém agarrou a Mamã [a mulher] pelos seios. Era o que faltava meterem-se com propriedade minha”.

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7 thoughts on “Catembe-Maputo: isto é uma história de mulheres

  1. Obrigada Ana e Rui. Foi de facto um incidente muito desagradável. Mais do que o machismo, o assédio, o que chocou foi a falta de empatia, o estarmos sozinhas no meio de tanta gente. Este momento permitiu-me compreender com uma acutilante nitidez a crueza da vida nos subúrbios.

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  2. Helena, aos 12 estava eu a espreitar pelo óculo da porta do condutor, a caminho da escola, quando um indivíduo atrás de mim – começa a dar-me pequenos socos. Viro-me e é um faia, ou um chulo, um malandro profissional, e continua a dar-me socos. Eu grito como aprendi cedo a fazer: «Este adulto está a chatear-me, eu sou uma criança», algo assim, que eu na altura falava bem de mais. Uma velha que estava sentada sorriu com maldade. E eu percebi: para eles eu era um menino burguês que ia à escola, um inimigo, um beto. O povo (ao qual eles não sabiam mas eu pertencia) odiava-me. Não é bonito o que vos aconteceu, é horrível, mas é mais comum do que julgas. E, infelizmente, «justificado». Como a história dos «The accused», com a Jodie Foster, num bar luso-americano.
    Há anos um amigo do Facebook, meu ex-aluno, disse: «Ó Rui,aquela linha verde do metro pode ser perigosa. Uma vez, há alguns anos, vi um adolescente ser assaltado por um fulano, e ninguém na carruagem mexeu um dedo para o defender!»
    A história tinha-se passado há uns anos. Bastou o meu olhar perplexo para o meu ex-aluno ter um baque e dizer: «Pois é, eu também não fiz nada…»

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  3. Mais um belo texto Helena. Ainda bem que o desfecho acabou por ser bom, o comportamento e a passividade cívica dos grupos pode realmente ser muito cruel e selvagem, infelizmente a História está cheia disso.
    Volte depressa e bem 🙂 Um abraço!

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  4. Subscrevo os comentários acima. Um infeliz episódio, que pode passar-se em muitos lados. Apesar de assustador, não deixa de ser uma belíssima narrativa. Viajo consigo de forma ímpar. Beijinho

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