Histórias de fronteira: Namaacha- Lomahasha

Karingana wa karingana, em changana são palavras passaporte. Uma espécie de Era uma vez . Suspendem o tempo e abrem a porta às histórias.Viajemos.

Relógio sem ponteiros. É a melhor imagem que encontro para descrever a Vila da Namaacha, a menos de uma centena de  quilómetros de Maputo. Já conheceu dias melhores e reluta em aderir a grandes urgências. Miudinha a chuva enverniza o alcatrão. As bermas estão vazias. Pontilhadas por sacos enormes de carvão vegetal para vender. Vem-me à cabeça o poema de Craveirinha: “Eu sou carvão!/E tu arrancas-me brutalmente do chão/e fazes-me tua mina, patrão./Eu sou carvão!/E tu acendes-me, patrão,/para te servir eternamente como força motriz/mas eternamente não, patrão.

Como se à imaginação me faltasse vigor suficiente, de uma árvore que sou incapaz de identificar, cujo tronco parece ensanguentado pelo pó espesso e vermelho, pendem sacos transparentes com castanhas de caju. Debaixo da árvore três  homens, enrolados em capulanasde cores garridas para enfrentar o frio, aquecem-se em redor de uma fogueira.  Mulheres dobram-se pela cintura sobre a machamba. Distraída pela paisagem sinto o frio nas margens da atenção como se não fosse meu, recuso permitir que a realidade venha a importunar o meu encantamento.

É excessivo chamar à Vila da Namaacha, como os colonos na década de 60 e 70 do século passado, Sintra.  Os casarões coloniais, que adquiriram a pátina do abandono, evocam-na, porém as queimadas – para produzir carvão para ter de comer – não o permitem.Os moçambicanos estão habituados a escolhas difíceis, as árvores ou a fome.

Talvez Fátima seja adequado, concedo. No mês de  Maio a  Namaacha acolhe uma das maiores peregrinações católicas do continente africano. O Santuário de Nossa Senhora de Fátima da Namaacha, inaugurado em 1944 pelo Cardeal Cerejeira, foi o primeiro santuário mariano a ser construído fora de Portugal. Além do Santuário, quem se interesse por arquitectura colonial encontra diversos motivos de interesse: a escola secundária, outrora Mouzinho de Albuquerque, as ruínas do Colégio Salesiano São João de Deus, o Hotel Casino Libombos na posse da família Rocha desde sempre. Parece que andamos para trás no tempo.

Timbabe –  pasta de amendoim, milho e açúcar –  matapa com chima, mpito ou prego no pão oferecem-se como ementa. Mas nada aquece como um café “com tempo” – faltou a electridade por duas vezes no Hotel Libombos – e gentileza moçambicana.

Cheguei à fronteira com a Suazilândia, estado africano no qual, entre outras peculariedades como a poligamia do rei,  a legislação da aviação civil interdita as bruxas suazi de voar acima dos 150 metros de altura. Ainda não é (seria)momento de dizer Phu Karingana! (que em  changana significa o final da história), porém as aventuras em Lomahasha não me pertencem apenas a mim, pelo que para já é tudo.

 

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PS-Ambas as fotos foram roubadas à IREX.


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