Porque é que Angela Merkel vai ganhar as legislativas alemãs de domingo?

Merkel_TIME

1. Gobbledygook é um neologismo que descreve linguagem obscura ou difícil de compreender. A palavra, inspirada pelo grugulhar do peru, foi criada em 1944 pelo congressista norte-americano, Maury Maverick, que estava farto da linguagem indecifrável usada pelo governo e pelos políticos.

Quem tem estado minimamente atento à política alemã sabe que um dos pontos fortes da  chanceler é a ausência de gobbledygook no seu discurso. Angela Merkel não é “motivada pela ideologia” como salienta uma das suas biógrafas, “Jacqueline Boysen, “ ela toma as suas decisões baseada em dados, estatísticas e factos”. Convém acentuar a palavra factos porque eles falam por si.  Olhe-se para o estado da economia alemã, mas não apenas. “ Não devem ser subestimados os esforços que fez para manter a Europa unida. A Grécia não abandonou o euro, os europeus do norte aceitaram pagar bail-outs, a Espanha e outros fizeram reformas que poucos julgaram possíveis, e ajudou a Europa ver-se livre de palhaços como Berlusconi”, escreve uma das revistas que durante os últimos anos mais criticou Merkel, a “The Economist”.

2. A Alemanha já foi mais europeísta do que hoje? Sim, aliás o tema Europa esteve à margem desta campanha eleitoral. Talvez porque tudo já tenha sido dito antes, ou talvez porque mesmo na improvável hipótese de Angela Merkel não ser reeleita, em termos de política europeia alemã nada irá mudar ( os sociais-democratas, demonstrando sentido de Estado, apoiaram no Bundestag  todas as medidas governamentais  no âmbito da crise da moeda única).

Perceber que a Alemanha actual já não é a Alemanha do tempo de República de Bona é fundamental para se participar num debate europeu sem ilusões, nem preconceitos. A Alemanha de Angela Merkel  é  a Alemanha que passou pela reunificação e por um difícil processo de reajustamento económico e de reformas estruturais (embora ainda insuficientes) que lhe permitiu reassumir o papel de locomotiva económica da Europa. Antes, a Alemanha era “ocidental, europeia e alemã”, por esta ordem. Agora é “alemã, europeia e ocidental”.

Os nostálgicos da República de Bona tendem a esquecer que, se a Europa mudou com o final da Guerra Fria – o alargamento da União Europeia e o euro são corolários dessa metamorfose –, a Alemanha fê-lo também, e de forma brutal. Convém ter isto presente quando se fala de “egoísmo” ou se esgrimem argumentos de incompreensão no momento em que a chanceler Angela Merkel recusa eurobonds ou defende a austeridade como receita para evitar a “irresponsabilidade financeira” dos países do Sul.

Hollande

3. Neste momento há poucos líderes políticos que estejam no mesmo patamar que Angela Merkel. François Hollande é uma barata tonta, Obama desbaratou o capital de simpatia (e algum de influência) e de David Cameron nem vale a pena falar. A crise parece ter tirado a muitos a necessária dose de bom senso para avaliar de forma positiva o legado de Angela Merkel, que não só mantém níveis invejáveis de popularidade, mas sobretudo detém a confiança dos alemães, mesmo dos que não votam no seu partido.

CORAX-Merkel-Greece

4. Aquando da sua visita a Portugal Merkel deu uma entrevista à  RTP conduzida por Isabel Silva e Costa ( ex-correspondente da RTP em Berlim) demonstrando duas coisas: que a chanceler (que poucas entrevistas concede) está bem consciente das dificuldades que Portugal enfrenta e que a solidariedade alemã está assegurada desde que as reformas sejam concretizadas. “Pela nossa parte, nós, alemães, vamos continuar a apoiar Portugal, Espanha e outros países. Fazemos isso porque também é bom para nós termos uma Europa comum”. Last but not the least, esta entrevista veio reforçar a minha convicção que os correspondentes em Berlim não podem ser substituídos pela tradução de takes de agências ou de jornais estrangeiros. Eu sei que prego no deserto, but damit é o meu deserto. Basta aliás ler alguma da cobertura eleitoral feita pela comunicação social portuguesa para ter vontade de arrancar todos os cabelos da cabeça e eu tenho muitos.

O futuro de Portugal também passa por aqui : por compreender os países vitais, como a Alemanha, num momento em que o mundo está em profunda transformação, e isso passa por uma imprensa qualidade.

3. Um gesto resume em poucas palavras o que a chanceler é. Quando  lhe perguntaram  porque coloca as mãos em forma de losango ela respondeu que o fez para resolver um problema de ordem prática, a mesmo espírito prático que fez com que adoptasse a sua “farda” (o casaco de botões grandes, com feitio mais ou menos igual, em todas as cores do arco -íris  conjugado um par de calças) . Não sabendo onde as colocar as mãos – um problema com o qual qualquer um dos 99, 3 por cento dos cidadãos não modelos ou actores de Hollywood se pode identificar – decidiu colocá-las num posição que as neutralize, simétrica e que empurre os ombros para cima melhorando a postura.  Mais merkeliana que esta explicação despretensiosa e pragmática  seria impossível.

Angela Merkel, a chanceler que conduz um carro modesto e faz as suas próprias compras, encarna a imagem que os alemães têm de si mesmos: frugais, sóbrios e pouco sofisticados, com um humor apurado e emotivos ( no que toca a futebol, no que toca a futebol). De alguns depara cá os alemães  passaram a chamar-lhe “ Mutti”, “mãe” .

4.  Sem Gobbledygookar a “The Economist”  aconselhou o voto na democrata-cristã. “Acreditamos que Merkel é a pessoa ideal para liderar o seu pais e a Europa. Em parte porque a é actualmente a política democrata mais dotada (e mais segura do que os seus rivais de esquerda )e em parte porque acreditamos que ela ainda se pode tornar na grande líder que a Alemanha e a Europa desesperadamente precisam”.

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