O dedo do candidato

O candidato social-democrata às legislativas alemãs, Peer Steinbrück, posa hoje na revista do Süddeutsche Zeitung com o dedo médio em riste.

Coerência não falta a Steinbrück. Inteligência também não. Neste capítulo ele está, aliás, vários furos acima de muitos políticos alemães. O que explica então esta pose indigna a poucos dias das eleições?

No suplemento que publica às sextas-feiras o Süddeutsche Zeitung tem uma página dupla singular. Neste espaço colocam-se questões a uma figura pública aos quais ela só pode responder por gestos, a revista publica então as perguntas e as fotografias a preto e branco com a mímica dos entrevistados. Esta semana o protagonista da entrevista muda é Peer Steinbrück. Quando questionado sobre as múltiplas gaffes na sua comunicação, que já lhe valeram cognomes como Problem-Peer, Pannen(avaria/acidente)-Peer, Peerlusconi, e sobre o que pensava dos seus críticos o ex-ministro da finanças esboçou um gesto bordaliano.  O seu assessor, um antigo jornalista do tablóide Bild, grande escola de falta de escrúpulo moral ou outro, ainda tentou impedir a publicação da reacção “irónica”, porém o candidato determinou napoleónico “podem publicar”.

Peer

A polémica, calculada milimetricamente, estalou. Na Alemanha não se fala de outra coisa. Nos comentários publicados e nas opiniões dos leitores de jornais muitos expressaram a dificuldade em apreciar como acto irónico supremo um dedo médio em riste. Palavras como “indigno, patético, falta de sentido de realidade e cool” dominam as discussões. Note-se que o código da estrada alemão prevê multas que podem atingir  4 mil euros para condutores que mostrem o dedo médio.

Desde Gerhard Schröder que o SPD alemão anda à procura de si mesmo e de uma ideia salvadora, Steinbrück, político inteligente e experiente, com cantos e esquinas, parecia um bom contraponto à imagem “sem contornos” de Angela Merkel. O que os social-democratas parecem ter subestimado é um detalhezinho chamado arrogância (e coerência como escrevi ali em cima). Quem tem um Steinbrück como adversário nem precisa de fazer campanha. Aliás nos corredores da campanha democrata-cristã – Angela Merkel tem gerido este período eleitoral com opacas declarações para os jornais – agradece-se a escolha do SPD e fazem-se apostas sobre a próxima escorregadela na banana.

Há alguns meses atrás o social-democrata fazia as manchetes quando classificou como  “ridículo” , de tão baixo, o salário do chanceler da Alemanha, antes deste episódio Steinbrück foi forçado a tornar público que anualmente recebia mais um milhão de euros pelas suas palestras. A lista das gaffes prossegue: chamou “palhaços” aos eleitores italianos, noutra ocasião afirmou que “uma garrafa de vinho que custe menos de cinco euros não entra cá em casa”.

Imagine-se, imagine-se por um instante que Peer Steinbrück ganha as legislativas, estão a imaginar este homem num Conselho Europeu quando as coisas não lhe corressem a jeito?

20130902-215943.jpg

Notas finais: Abençoado país cuja campanha eleitoral é dominada pelo que se faz com as mãos.
Lembram-se do que aconteceu ao Stefan Effenberg? Não é preciso ter bola de cristal para prever que o mesmo acontecerá ao Peerlusconi. E logo agora que as sondagens tinham começado a melhorar para os social-democratas. Chama-se a isto ter sentido de oportunidade.Not.

Peeer2

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5 thoughts on “O dedo do candidato

  1. A ” estória ” está um pouco( ou será muito?) mal contada. A direcção editorial do Süddeutsch Zeitung perguntou previamente ao candidato do SPD, se estava de acordo com a publicação da foto… Com enorme fair-play, ele respondeu afirmativamente. Justamente, Steinbrück venceu o primeiro debate/duelo na TV com a Merkel…Ele que durante meses foi vitima de um equivoco muito mal-cheiroso nos médias/vassalos da burguesia prussiana, forçou, objectiva e sem apelo nem agravo, a candidata do centro-direita a dizer muito bem do estilo e pensamento dele no frente-a-frente. O resto são pormenores… sem importância alguma, ou só para nos iludirmos com os factos politicos que favorecem os designios de uma força politica que muito mal tem feito à construção da União Europeia. FA. Ribeiro

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    1. Fernando, o próprio Süddeutsche Zeitung conta a “estória” e a tentativa do assessor de Steinbrück evitar a publicação da fotografia.

      Não sei se se pode considerar a Der Spiegel ou o Die Zeit imprensa “burguesa” e ambos têm sido muito críticos em relação ao social-democrata.

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  2. Obviamente que isto iria cair mal, publicamente. Mesmo se a figura em questão – que desconhecia – fosse um político consolidado e largamente apreciado. Há “irreverências” que têm de ser medidas…

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  3. Boa recuperação na álea do comentário, astuta e combativa Helena! Mas não me respondeu ao mais importante: o facto da enga. Merkel ter uma inacreditável politica anti-europeia…Nós somos portugueses!!! fernando

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