Porque é que certas coisas banais têm a ver com a liberdade ?

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Na defesa de valores não pode haver lugar para Pilatos. Antes de sermos apanhados de surpresa por uma total inversão de valores, é bom estar atento aos sinais.

Estes são os factos: uma adolescente muçulmana pretendia não ter de frequentar aulas de natação, numa escola de Frankfurt, mesmo usando burkini, porque se sentia ofendida nas suas convicções religiosas com a presença de rapazes em calções; invocando também a religião um adolescente queria ser dispensado de assistir ao filme “Krabat” (cujo argumento é uma adaptação do livro de Otfried Preussler, um dos mais célebres autores infantis alemães). Ambos os casos foram levados perante o Tribunal Administrativo Federal que decidiu hoje com lucidez que “a religião não pode interferir com no currículo escolar”.

Em 2009, foi autorizado na Alemanha uso de burkini nas piscinas e nas escolas públicas. Uma decisão política controversa tomada para “facilitar a integração” de jovens e mulheres muçulmanas. Pessoalmente defendo que cada um tem o direito inalienável de decidir sobre as suas convicções religiosas ou os seus hábitos de vida se isso o implica só a ele. Se o burquini faz com que as meninas muçulmanas entrem na piscina com os colegas da escola e aprendam a nadar, excelente. Agora é aberrante e perigosa a pretensão de regular o código de vestuário dos restantes alunos e alunas. Assim como é aberrante querer impedir um jovem de filme “Krabat” só porque terá “elementos de feitiçaria”. O que se proibiria a seguir? O “Fausto”?

Tolerar e compreender outro não significa abdicar dos nossos valores, nem da nossa herança judaico-cristã, nem alinhá-los pela fatwa do politicamente correcto. Pode-se respeitar as convicções religiosas do outro sem ceder nos princípios básicos do livre pensamento, da livre expressão e da autodeterminação. Caso contrário a nossa sociedade democrática e livre tornar-se-à numa espécie de Aquele-Cujo-Nome-Não-Se-Pode-Pronunciar.

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11 thoughts on “Porque é que certas coisas banais têm a ver com a liberdade ?

  1. Passo com frequência por este blogue, entre outras muitas razões, porque a Helena não foge ao que não é fácil. Continue assim,
    Gabriel Mithá Ribeiro

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    1. Se a natação faz parte do currículo escolar, como a matemática ou o alemão, não há outra opção possível senão a de participar na aula. Imagine que uma criança evocava uma razão ideológica ou religiosa para ficar dispensada das aulas de matemática ou ciências, qual seria a reacção?

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      1. Sinceramente, acho que essa opção deve caber na liberdade de educação que deve ser dada aos pais, já que, muito provavelmente, não têm dinheiro para colocar a filha numa escola muçulmana. Também acho que não podemos comparar aulas de natação com matemática ou a língua materna, mas mesmo que assim fosse, penso que deveria ser da opção de cada um.

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  2. Post muito interessante, Helena. Desconhecia essa do burkini e está aqui matéria para reflexão. No geral, concordo com o que diz, obviamente. A liberdade de uns não pode condicionar a liberdade de outros. Acho que as questões religiosas, assim à primeira, deviam ser banidas das escolas, hoje em dia. Inclusivamente a EMRC, que ainda existe nas nossas, uma vez que não há outra alternativa, de cariz “religioso” diferente. O que era interessante para mim saber é se nos países de fortes convicções muçulmanas, ou seja, onde e aplicam as leis islâmicas, uma imigrante europeia pode frequentar a escola lá e vestir-se de acordo com as suas convicções, religiosas ou não. Nas aulas todas e nas de natação, a havê-las. Porque se não, então isto do burquini não tem qualquer razão de ser. Independentemente do decoro e da circunstância, pois defendo roupa minimamente adequada às diferentes situações, não pode haver liberdades que valem mais do que outras.

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  3. Catching up: Foi-me dito que nesses países há escolas para os estrangeiros, precisamente para poderem ser e vestir o que querem e mantendo os seus hábitos e liberdades. Mas isto coloca novas questões: por um lado, então, compreende-se a integração ( e o automático respeito pela liberdade e escolha de indumentária de cada um) das meninas muçulmanas na aula de natação dessa forma (a confirmar-se a não existência de escolas muçulmanas/islâmicas na Europa ou neste caso na Alemanha); por outro, parece haver maior abertura cá – ao permitir-se a mistura, física, pelo menos – do que lá – onde se criam mundos distintos, uns de um lado e outros do outro, mental e fisicamente. Resta-me saber – e vou querer saber mais assim que tenha algum tempo – o porquê da não existência, ao que parece, de escolas muçulmanas na Europa e quem financia as europeias/estrangeiras em geral nesses países muçulmanos. Concluo dizendo que não há liberdades mais importantes do que outras, que devemos respeitá-las se elas não puserem em causa a dignidade dos outros – lá e cá – e que também as coisas deviam ser mais simples na cabeça dos homens – e das mulheres. Todos. 🙂

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