A Selva

Que maior homenagem se pode fazer a um livro? Relê-lo?
Não. Visitá-lo.

Da caótica Marina do Davi, na Ponta Negra, em Manaus, partem lanchas brancas e vermelhas. Sem horário. Largam amarras quando estão completas.
A lancha desliza veloz pelo igarapé de São João, um dos braços de rio do sedoso Rio Negro. Nossa Senhora de Fátima, Livramento, Vila Paraíso. Desembarco na areia, porque as águas vão baixas neste início de Verão, ao meu lado erguem-se a vários metros do chão os pilares do cais de madeira.

Grande plano: à minha frente, entre buganvílias roxas,orquídeas, palmeiras e seringueiras, estendem-se em linha recta, a casa senhorial amarela do Barão Juca Tristão, o barracão de aviamento (mercearia), a capela de Nossa Senhora da Conceição. Logo atrás, a casa do seringueiro, o tapiri (cabana) de defumação da borracha e cemitério (a mortalidade entre os seringueiros causada por malária, outras doenças tropicais, maus-tratos, tuberculose ou acertos de contas, era elevada).

Estou no cenário de “A Selva”, de Ferreira de Castro, um dos livros mais lidos de sempre (em 1973 a UNESCO colocava-a entre as dez obras mais lidas do mundo). Aos 15 anos devorei-o e devo-lhe, entre outras coisas, o fascínio pela Amazónia. “A Selva” é a denúncia do Brasil arcaico, um relato dos invisíveis, dos habitantes dos limites da vida: os seringueiros que vinham do Ceará ou do Maranhão fugindo à fome e à seca e que acabariam escravos dos barões da borracha. Simultaneamente é um retrato belíssimo e detalhado da Amazónia como Génesis e Inferno. “Era, então, o Amazonas um imã líquido na terra brasileira e para ele convergiam todas as ambições dos quatro pontos cardeais, porque a riqueza se apresentava de fácil posse, desde que a audácia se antepusesse aos escrúpulos”.

O actual Museu do Seringal foi construído em 2001 como cenário para o filme “A Selva”, uma produção luso-brasileira, dirigida por Leonel Vieira, e reproduz o seringal Vila Paraíso (a ironia…) em Humaitá, a cerca de 600 quilómetros de Manaus, onde se desenrola a história ( e onde o próprio autor trabalhou durante a adolescência como seringueiro).
Acompanhada por uma guia percorro os diferentes espaços. A visita começa habitualmente no casarão e acaba no tapiri. Pedi, privilégio de visitante única, que se invertesse a ordem. Sentada junto ao fogo a guia exemplifica o processo de transformação do leite (látex) em borracha. Vai rodando uma espécie de espeto em torno do qual se forma a bola de borracha que ao final de uma semana de trabalho poderia pesar entre 50 a 60 quilos. Antes o seringueiro fazia “estrada”: rasgava a seringueira (hevea brasiliensis) em diagonal, colocava latinhas para colher o leite e recolhia as latas.

” [O defumador] era também uma barraca e ficava ali mesmo, por detrás do canavial. A princípio, Alberto [ o jovem português monárquico protagonista do romance] nada viu. O recinto estava cheio de fumo ácido e a primeira sensação que ele teve foi a de que ia asfixiar. Pouco a pouco, porém, lobrigou Agostinho sentado num caixote (…)devagar, Agostinho estendia a pá que tinha na mão, sobre a pá derramava, servindo-se de pequena cuia, uma parte do líquido e levava-a, em seguida, para o buraco fumegante. A seiva da seringueira,
ao contacto com o fumo, secava, mudando rapidamente de cor. Do níveo leitoso passava ao castanho e tomava consistência que era já elasticidade”.

Entramos no casarão. O luxo colonial dos móveis de jacandará, o piano alemão, as pratas e os cristais do magnata da borracha contrastam com a espartana cabana de paxiúba e a rede dos seringueiros.
Com uma força que me deixa quase sem pulso consigo sentir o cárcere, sem pena fixada, sem dia marcado para a abertura da porta, de Alberto e dos outros seringueiros presos por dívidas a Juca Tristão. “Um conto, setecentos e quarenta mil réis… dois anos? cinco anos? Ou toda a vida?”.

Muito mudou no Brasil, porém nalguns recantos do “continente Amazónia” as páginas de Ferreira de Castro não perderam uma pitada a actualidade. Impõe-se (re)visitar este livro porque as escolhas limites se fazem todos os dias.

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