Guerra dos médicos no Brasil

1. No Brasil vai ao rubro a guerra dos médicos. Ouvi o que dizem as ruas, a imprensa, o Facebook e o Twitter. Tudo somado esta é uma questão de diluição das fronteiras entre os cidadãos de direito ( e com direitos) e os que têm estado fora do alcance do direito (e dos direitos).
Vamos por partes:

– Facto é que, quer no nordeste quer no norte do Brasil, há escassez de médicos, apesar do aparente elevado ratio nacional médico por habitante *, isto porque os profissionais se recusam a enfrentar as condições duríssimas destas regiões. Há comunidades na Amazónia às quais só se chega através de uma viagem de barco de vários dias, porque os rios são as estradas. Conseguem imaginar a prestação de cuidados de saúde em alguns países africanos? Pois nos cafundós do sertão e da Amazónia o cenário é igual ou pior.

-Facto é que os conselhos médicos brasileiros estão a agir de forma corporativista e que roça a xenofobia contra os médicos estrangeiros e em particular os cubanos.

– Facto é que afirmações como as de que os “médicos brasileiros não irão socorrer erros de cubanos” são inqualificáveis e demonstram um total desrespeito pelo elementar direito humano de acesso à saúde.

– Facto é que a Medida Provisória 621/13 (que permitiu contratar 4 mil médicos cubanos) viola as leis trabalhistas brasileiras e assemelha-se a uma medida da ditadura militar.

– Facto é que do salário mensal de 10 mil reais os médicos cubanos irão receber entre 25 a 40 por cento, na melhor das hipóteses, ou menos de 10 por cento no pior dos cenários, sendo o restante salário usado para financiar o regime de Raul Castro. As famílias dos médicos ficam “retidas” em Cuba para prevenir pedidos de asilo.
A fronteira entre a moralidade da medida e o tráfico de pessoas humanas é muito ténue.

Tudo isto para dizer que a questão da chegada de médicos estrangeiros ao Brasil é uma questão complexa que não pode ser reduzida a lutas ideológicas esquerda-direita, pro-contra Cuba, pro-contra Dilma. A rua global dos blogs e do Facebook pode mudar a discussão para melhor se a centrar no que é essencial: a dignidade.

2. Pragmático, o chanceler Konrad Adenauer dizia (no pós-guerra e no momento em que a Alemanha iniciava a sua reconstrução ): o ideal seria ter água limpa (referindo-se ao passado nazi de médicos, juízes e outros profissionais qualificados), mas “prefiro àgua turva à falta de água”. Momentos excepcionais merecem medidas excepcionais.

Com a desenvoltura de quem está sentado no conforto europeu ou nas cidades mais prósperas brasileiras e não imagina a miséria e a dureza do interior brasileiro – não é ficção, não é literatura, é o quotidiano – critica-se a importação de médicos.

Entre uma mãe-menina que morre no parto por falta de assistência e a minha aversão por regimes onde a liberdade não existe, escolho a pessoa concreta, a mãe-menina e não a abstracção da ideologia.

3. Nos últimos dois anos atravessei toda a Amazónia legal, do Acre ao Maranhão, fugindo aos roteiros turísticos. Conheço a natureza impar, de cortar a respiração,os rios que são mares e a generosidade comovente, sem limites, de tantas, tantas pessoas. Na maioria católicos realizando um trabalho pastoral e humanitário que não assenta na riqueza dos recursos, mas na simplicidade e na criatividade do amor. Vivendo o verdadeiro espirito de São Francisco de Assis.

Porém, não consigo apagar da retina os meninos descalços, que moram em habitações de tábua à beira de lixões, e que jogam futebol com uma bola de fibras de palmeira. Como ignorar as meninas de 11, 12, 13 anos que se prostituem nas balsas, que são vítimas de violência sexual? Como entender os adolescentes que matam à catanada por um punhado de reais, o trabalho escravo e as jovens que morrem ao dar vida? Sobra em crueza à vida nestas florestas. Estes brasileiros (e são muitos milhões) merecem que lhes devolvam a dignidade que tudo à volta não tem mercê dos tantos anos de descaso estatal.

Notas:

* A Organização Mundial de Saúde (OMS) preconiza como parâmetro ideal de atenção à saúde da população a relação de 1 médico para cada 1.000 habitantes.

No Brasil, a relação média observada de 1/622 habitantes está muito abaixo deste parâmetro devido à grande concentração de médicos ativos verificada nas regiões Sudeste (1/455 hab.), Sul (1/615 hab.) e Centro-Oeste (1/640 hab.). As regiões Nordeste e Norte apresentam uma relação média de 1/1.063 e de 1/1.345 habitantes, respectivamente.

Uma pesquisa efectuada pelo Ministério da Saúde brasileiro indica falta de médicos no interior dos estados de Tocantins, Amapá, Rondônia, Acre, Amazonas e Pará (região Norte); Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Bahia, Alagoas, Ceará, Maranhão, Piauí e Sergipe (região Nordeste) e Goiás, Mato Grosso (Centro-Oeste).

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One thought on “Guerra dos médicos no Brasil

  1. Li com a maior atenção, imagino o abandono no “outback” brasileiro e um médico é sempre, sempre bem vindo, na perspetiva de quem precisa. O bem estar tem de prevalecer sobre qualquer ideologia.

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