Um chanceler e seu espião (ou a NSA não está fazer nada de novo)

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Ninguém melhor que o historiador Hans-Peter Schwarz explicou as coisas numa simples frase: “o chefe de Governo fez figura de um fascinante director de circo ao lado do qual os diferentes artistas do Gabinete efectuaram melhor ou pior o seu número”. Em 1974 os tambores rufaram pela derradeira vez para Willy Brandt no circo de Bona.

A biografia de Brandt,  primeiro social-democrata a chegar ao cargo de chanceler da Alemanha no pós-guerra, é inseparável de alguns dos principais momentos da história recente do país. Chefiou o Governo entre 1969 e 1974, tinha sido já ministro dos Negócios Estrangeiros desde 1966 e fora, entre 1957-1966, burgomestre de Berlim Ocidental, vivendo directamente os principais momentos de tensão da construção do Muro de Berlim e da divisão da cidade. Para os politólogos sua obra como Estadista tem uma dimensão comparável apenas à dos dois grandes chanceleres democratas-cristãos, o “patriarca” Konrad Adenauer, e o “patriota” Helmut Kohl.

O culto da personalidade de Brandt, não está encerrado. Longe disso e demasiado longe do que de inspirador (na política) ele teve.

O sedutor

Muito antes da princesa Diana, já Willy Brandt tinha nos corredores da discreta e provinciana Bona o rótulo de “chanceler dos corações”.

Grande sedutor, grande pensador, grande manipulador, Brandt  foi uma espécie herói shakesperiano. Femeeiro,  excessivo no álcool – o chanceler “está com gripe” escreviam os jornais na época – e no tabaco. Fraquezas que ao funcionarem como factor de identificação explicam grande parte da sua popularidade.

Teve um consulado político breve, 5 anos,  pontuado por duas moções de confiança. Foi o grande motor da primeira vitória do SPD nas urnas – as eleições de 1972 registaram uma impressionante participação eleitoral, 91,1 por cento.  Por uma ironia histórica tropeçou numa pedra que lhe foi colocada no caminho pelo Estado com quem procurava uma relação de “boa vizinhança”.

Derrubado pela Stasi ?

5 de Maio de 1974, na sua casa privada, em Bona, Willy Brandt escreve: “assumo a responsabilidade política pelas negligências em relação ao caso do agente Guillaume e apresento minha renúncia ao cargo de chanceler federal”.

No mesmo dia em que Portugal se encerrava o negro capítulo da ditadura, Günter Guillaume, assistente pessoal do chanceler, e a sua mulher Christel são detidos e acusados de durante 18 anos terem espionado para a Alemanha Oriental. Brandt tinha conhecimento desde 1973 das suspeitas que recaíam sobre o seu assistente, mas seguiu os (maus) conselhos do serviços de contra espionagem  e do então ministro do Interior, Hans Dietrich Genscher, e manteve-o ao seu lado. Um espião do Leste no centro do poder político da Alemanha Ocidental, um imenso êxito para a Stasi.

Guillaume , que não era nenhum James Bond, tornou-se mais célebre dos mais 12 mil agentes secretos que o Politburo conseguiu infiltrar “no inimigo capitalista”.

O espião que levou Brandt à resignação chegou à Alemanha Ocidental em 1956, como refugiado político. Depois de ter feito carreira no SPD de Frankfurt  conseguiu a partir de 1970 entrar para o  chancelaria federal como assistente  em matéria económica, financeira e assuntos sociais. A partir de 1972 torna-se assessor pessoal do chanceler –  paradoxalmente um colaborador incansável  que venerava Brandt e o espionava – e tem acesso a documentos classificados. Foi condenado a 13 anos de prisão, tendo sido amnistiado em 1981 e reenviado para a RDA.

Decerto que também havia espionagem no sentido contrário. Porém, pouco se sabe sobre esse capítulo da história das duas Alemanhas, devido à dificuldade de encontrar fontes. Muitos arquivos dos serviços secretos  ocidentais continuam encerrados e os agentes  mantém o sigilo.

A demissão de Willy Brandt  não significou o fim da sua carreira . Pelo contrário, a sua verdadeira vida começou nesse momento, saiu da sombra do “pequeno” poder ( se é que este termo se pode aplicar a um chanceler da Alemanha)  para se tornar num “Homem de Estado sem cargo” (Staatsmann ohne Staatsamt), assumindo a liderança da Internacional Socialista e da Comissão Norte-Sul (1977-1983).

WB-Varsóvia

Da era Brandt, hoje consensualmente revisitada à esquerda e à direita como um momento histórico único que possibilitou a reunificação do país,  podem destacar-se um gesto, a genuflexão no gueto de Varsóvia,  e uma politica visionária, a Ostpolitik, resultante do desapontamento face à reacção norte-americana perante a construção do Muro de Berlim.Ao ajoelhar-se na Polónia rendido pelo peso da culpa alemã, o Nobel da Paz contribuiu para a reabilitação da Alemanha no mundo. Pediu perdão não por si, um resistente, mas pelo seu povo. Abrindo a porta a uma reconciliação entre povos e dos alemães consigo próprios. Ao incitar o seu país a reconhecer a fronteira Oder Neisse e a Alemanha de Leste – uma traição para a direita conservadora – e a melhorar as relações com União Soviética, Brandt não abandonava o sonho de uma Alemanha sem a fractura imposta por Ialta. Pelo contrário, Brandt, que nunca tivera nenhuma relação emocional com a Aliança Atlântica, conseguiu a apoio da administração Nixon para a sua política de desanuviamento e resolver a questão de Berlim. Os esforços de Brandt para unificação alemã e a paz na Europa tiveram o corolário na noite de 9 de Novembro de 1989, quando o Muro caiu. Pacificamente, sem o derrame de uma gota de sangue.

PS- Não é segredo para ninguém a minha (má) opinião sobre o candidato do SPD às legislativas de 22 de Setembro e quanto mais olho para a história social-democrata mais argumentos arranjo.

 

 


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