Apontamentos à margem das férias

1.Naquele tempo eu pensava que a pior coisa do mundo eram as férias de Verão em família. Os quilómetros intermináveis de curvas que ligavam Lisboa “à terra”, as procissões em que me vestia(m) de santa ou anjo (ohmmm), os arraiais populares, a vida de aldeia em Vila-Nova de Baixo. Povoado sonolento encostado à “bila”, Vila-Real. Naquele tempo eu era adolescente e ainda não conhecia a comida inglesa, Fifty Shades of Grey e a música do Gustavo Lima. Adiante.

Como os quadros, há dois modos de observar a vida: de perto como o pintor ao criá-los e ao longe, à distância necessária para avaliá-los. Neste ir e vir, escreveu Ferreira Gullar, ” descobrirá o viés/ da tessitura/da pasta luminosa e basta/ que lhe constitui/ a carnadura”.

Nostalgicamente, graças à serenidade conquistada pelos anos, recordo de sorriso nos lábios as aventuras com os primos na quinta da avó, subir à cerejeira, mergulhar os pés na água gelada da fonte, os banhos de rio e o céu negro feito capulana de estrelas. Quase que sinto o cheiro da cozinha tosca da avó Emília, onde os tabuleiros assavam cabrito e batatas e a sopa fumegava. Aos sabores da mesa unem-se os demais sentidos, o perfume da hortelã e do melão maduro, a seda dos pêssegos rosados, o bruá dos netos naquele casarão de pedra granítica avivado por portas e janelas vermelhas.

Afinal, apesar dos horários rígidos das refeições, dos desconhecidos e familiares distantes que ouvia com impaciência e um sorriso de circunstância, dos olhos de falcão e do “dedo adivinho” da minha mãe, as longas férias de Verão na aldeia, decantam-se em memórias felizes. Autênticas.

2. Escrevo em frente ao Atlântico, em Porto das Galinhas, uma das magníficas praias de Pernambuco, antiga capitania de Nova Lusitânia, antes terra de índios tabajaras. Lençóis de água esmagam-se sobre a areia e misturam-se com espuma branca do mar revolto. As folhas dos coqueiros agitam-se numa coreografia esboçada pelo vento. Beleza sem moldura.

Perturba-me pensar que neste paraíso no Novo Mundo se escancararam as portas do inferno. Embora não haja consenso entre os historiadores, a tradição oral conta que Porto de (das) Galinhas ganhou este nome por aqui se ter continuado a praticar o tráfico de escravos, para os engenhos de açúcar, após a proibição deste no Brasil. Os africanos que nestas areias desembarcavam no século XIX, a maioria provenientes do porto de Luanda, vinham escondidos em galinheiros. A chegada dos escravos ao porto era anunciada pela senha “Tem galinha nova no Porto!”.

Privados de tudo os escravos procuraram formas de contornar as proibições da senzala. Gingando capoeira ou evocando em segredo os antepassados africanos na Noite dos Tambores Silenciosos, celebrada actualmente nos Carnavais do Recife e de Olinda, sempre na segunda-feira, dia das almas nas religiões africanas.

“Do fundo das senzalas de outros tempos se levanta o clamor dos meus avós/que tiveram seus sonhos esmagados sob o peso de cangas e libambos amando, ao longe, o sol das liberdades”, palavras de “Lamento Negro” – hino inoficial das modernas Noites dos Tambores Silenciosos – do poeta brasileiro da negritude Eduardo de Oliveira.

Pernambuco é mais do que os resorts, os turistas da praia e do bilhete-postal. Os lugares são importantes, já aqui falei de Olinda, poderia escrever sobre o Recife e a pulsação frenética das suas ruas, cidade colosso mesclando desordenadamente arranha-céus e degradadas igrejas, autênticos museus de azulejaria portuguesa e arte sacra. O que me ficará na memória são as pessoas, com geografias e diferentes continentes nos traços e na pele, as histórias que vem ao nosso encontro, bastando dois dedos de conversa e, what else, a doçaria tão cheia de subtileza e exigindo tanto vagar. Pensando nas tapiocas recheadas de doce de leite e coco vem-me à cabeça o Luis Fernando Veríssimo, “o come e não engorda é meu ídolo. Só não lhe peço autógrafo por inibição. Meu sonho é emagrecer e depois nunca mais engordar, por mais que tente. Quando eu diminuir, quero ser um come e não engorda”. Adiante.

3. Depois de uma fervilhante semana no Rio, em que os dias pareceram ser demasiado pequenos para tanto Papa, é difícil desacelerar. A mantra diária das minhas filhas : “o que vamos fazer hoje?”. Eu a olhar para o mar, as redes estendidas à sombra e a aspirar ler três parágrafos sem ser interrompida. Elas em modo “Help! Quero corresponder-me com qualquer pessoa, em qualquer lugar. Urgente! Assinado Robinson Crusoé”.

Sempre que me ouvem descrever (extasiada) as delícias de um acampamento – cozinhar numa fogueira, dormir no chão olhando para as estrelas, montar a tenda, prescindir de internet e do admirável mundo novo do aipode-pad-fone – ou do regresso ao autêntico, as “divas” levantam a sobrancelha.”Langweilig”! (monótono). O que encanta uns, horroriza outros. É isso que torna a espécie humana, ou melhor, a relação pais-filhos adolescentes e pre-adolescentes…interessante.
Saia uma dose de generation gap ali para a rede do canto (onde eu me vou estender acompanhada pelo Ariano Suassuna). A harmonia familiar, graças à publicidade norte-americana, é um bem sobrestimado, ou eu sou uma mulher com uma memória muito curta (ver 1). Ohmmmm.

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3 thoughts on “Apontamentos à margem das férias

  1. Já estive em Pernambuco, Olinda, Recife e Porto de Galinhas e mais uns lugarzinhos perto. O que descreve, também senti… Saudades, apesar de tudo. O Brasil emocionou-me e contou histórias que não esquecerei. Como é bom ler os seus posts viajantes, muito bom. Beijinhos

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