Copacabana, princesinha do Papa *

Conheci o Mateus, nome de baptismo, “Milkshake”, nome de rua, no Sambódromo da Marquês de Sapucaí. No bolso tinha 110 reais contados. Dois vincos de preocupação próprios de quem tem alguma inquietação sulcavam a testa do adolescente negro. “A minha avó ofereceu-me este dinheiro para eu participar. Não a quero desiludir”.

Mateus mora num pé de morro de uma das mais de seiscentas favelas não pacificadas do Rio de Janeiro. Omito o nome a pedido dele. “Eu não quero aquela vida [o tráfico e a criminalidade] para mim. Vi muitos amigos morrerem”. A taxa de homicídios nas favelas das grandes cidades brasileiras, a mais elevada do mundo, segundo a UNODC, fez com que a esperança de vida nas favelas descesse, em 2010, sete anos. A maioria das vítimas são negros entre os 15 e os 30 anos.

Os frades com quem Mateus joga futebol tiraram-no da rua. “Se não fossem eles, não sei”. Agora só quer cumprir o desejo da avó e o seu: participar na vigília e na missa campal com o Papa Francisco. “A senhora fique sabendo que quero ser um homem bom. É tudo o que quero”.

O “kit peregrino vigília”, que Mateus e eu queremos comprar, abrange os dois eventos no fim de semana – inclui o valor do transporte, da alimentação, a colorida mochila e seu conteúdo – e custa 109 reais. O plano inicial da organização da Jornadas Mundiais da Juventude era que a vigília e missa de encerramento acontecessem a 50 quilómetros do Rio de Janeiro, em Pedra de Guaratiba, e não em Copacabana como acabaria por acontecer.

À medida que a fila no Sambódromo vai avançando em direcção ao bumbum de mulata desenhado por Niemeyer – só o Rio se lembraria de colocar a sede administrativa da JMJ e alojar peregrinos no local onde se realiza a maior festa profana da cidade – outras pessoas se vão juntando à conversa. A Márcia veio de Brasília no avião da manhã (de Terça-feira e regressa à noite à capital ) só para comprar o “kit peregrino”. “O meu marido só conseguiu folga no final de semana. Mas nós tínhamos de estar no Rio”. A Cláudia e o Francisco, reformados, vieram de Aparecida acompanhando um grupo de jovens argentinos e bolivianos. “A alegria deles é contagiante”.

Olho à minha volta, franciscanos, irmãs da ordem de Madre Teresa de Calcutá, sotainas negras, bandeiras de muitos países. O céu está cor de chumbo, sem sol, só nuvens. Partilham-se chapéus de chuva (nos dias que se seguirão em Copacabana os vendedores de capas impermeáveis ganharão para o mês inteiro. A “farda” dos peregrinos será a tshirt verde, a mochila verde, azul ou amarela e a capa translúcida). Canta-se. “Venho do Sul e do Norte, do Leste e do Oeste, de todo o lugar”.

Chegámos finalmente ao balcão de inscrição de peregrinos. O Mateus tem os olhos brilhantes de comoção e um sorriso rasgado. Abraçamos-nos à despedida. Não há povo que consiga abraçar como o brasileiro. Nem acolher. Do Leblon à Penha, de apartamentos de luxo a casas humildes na favela, foram milhares os que abriram as suas portas, oferendo um colchão e café da manhã aos peregrinos do mundo inteiro.

Passei dias inesquecíveis no Rio de Janeiro, apesar do frio e da chuva. Afinal não foi a praia que trouxe aqui.

Poucos saberão que Copacabana, talvez a praia mais cantada do mundo – quem não se recorda do poema de Vinicius, “Esta é Copacabana, ampla laguna /Curva e horizonte, arco de amor vibrando/ Suas flechas de luz contra o infinito. /Aqui meus olhos desnudaram estrelas” – deve o seu nome à boliviana Nossa Senhora de Copacabana, santa trazida para o Brasil no século XVII comerciantes e cuja devoção começou com um nobre boliviano de nome Francisco. Que palco mais belo para tantos milhões de crentes?

As JMJ trouxeram ao Rio de Janeiro o maior número de visitantes de sempre. E mesmo os mais cépticos entre os cariocas se renderam à força daqueles jovens que estoicamente suportaram frio, filas intermináveis e alguma confusão. Com um sorriso nos lábios, uma viola ou uma canção. “Eu sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor”, cantado pela torcida brasileira durante jogos da canarinha no campeonato do Mundo, tornou-se numa espécie de hino inoficial nos despiques amistosos entre brasileiros e argentinos.

Três milhões rezaram em Copacabana, na praia e extravasando fora dela, em plena Av. Atlântica, emocionaram-se, abraçaram-se, ajoelharam-se na areia e no calçadão. O Rio nunca tinha visto nada assim.

“Sejam protagonistas da sociedade, não assistam à vida pela janela, Jesus não fez isso.”, disse o Papa à despedida. Assim seja.

* o título é de uma reportagem da Alexandra Lucas Coelho

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