Olinda

O casario está pousado nas colinas. Que são sete como em Lisboa. Património da Humanidade classificado pela Unesco. Panorâmica geral: cores vivas, azul, rosa, verde, amarelo, pontuada pelo branco e amarelo das igrejas e a moldura do Atlântico, que aqui é de cetim turquesa, com um pesponto no horizonte.”Olinda é só para os olhos,/não se apalpa, é só desejo./Ninguém diz: é lá que eu moro./Diz somente: é lá que eu vejo”.

Olinda, nome que parece conter toda a história, toda a graça e a maldição da cidade. Conta a lenda que terá sido Duarte Coelho, o primeiro capitão donatário de Pernambuco e fundador da cidade, a afirmar “Oh linda”, referindo-se à sua localização.

Em dias mais quentes que este Verão, inverta-se a geografia, que aliás aqui é Inverno, nas lajes da impiedosa ladeira da Misericórdia – o nome deve-se à Igreja da Misericórdia, no topo da encosta, construída em 1540, por ordem da Coroa Portuguesa e incendiada no século XVII pelos holandeses, como boa parte do património histórico da cidade – encontram-se o Homem da Meia Noite e a Mulher do Dia, bonecos gigantes do Carnaval de Olinda, talvez o mais democrático dos carnavais brasileiros.

Esta cidade, que para as dimensões do Brasil, não é bem uma cidade, declina-se em frevo ( os passos do frevo têm a sua origem na capoeira) e maracatu, tapioca de coco, sururu (caldo de um molusco semelhante à ostra, com leite de coco e dendê), sarapatel, nego bom (doce à base de banana caramelizada e limão), bolo Souza Leão, pau-de-índio ( bebida feita com cachaça, guaraná, mel e ervas). Tentadora carícia para os sentidos.

Viveiro artístico e cultural – Olinda é palco anual da Fliporto, a Festa Literária Internacional de Pernambuco – e simultaneamente cidade onde o abandono se instala como uma ferrugem corrosiva. Casarões outrora imponentes podres, fachadas partidas, queimadas pelo sol, em ruínas. Quem conheça as cuidadas cidades históricas de Minas Gerais, exclamará “oxente”, sentirá o travo do desapontamento.

Tanta riqueza, tão pouco cuidada. No belíssimo Convento de São Francisco – datado de 1577, talvez o local onde no Brasil se encontra o mais importante espólio de azulejaria portuguesa e onde foi instalada a primeira biblioteca pública de Pernambuco – a cantaria de algumas janelas desafia a gravidade, os frescos clamam por um restauro e as paredes por cal. É apenas, poderiam ser bastantes mais os exemplos.

Olho para Olinda como para a Brigitte Bardot, uma mulher outrora esplendorosa, com a qual o tempo foi cruel. Só o sorriso rasgado da Bardot permite adivinhar os traços da sua antiga beleza.
Olinda já foi a mais bela das cortesãs, hoje é “apenas” respeitável.

À revelia dos tropeços da História e da incúria política. Não há lágrima que não se possa transformar em em sinal de uma alegria maior. Como diz a canção “não, nada irá neste mundo/ apagar o desenho que temos aqui”.

PS- Com o Recife aqui tão perto, que acolherá jogos do mundial, resta-me a esperança que sobre atenção para a vizinha Olinda.

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