As férias ( ou porque estou mesmo a precisar delas)

Quarta-feira à noite, estava eu posta em sossego a ler, “O verdadeiro George Clooney”, um conto com o requintado humor do Luís Fernando Veríssimo, que abre da seguinte forma “longe de mim querer difamar alguém, mas acho que no caso do George Clooney o que está em jogo é autoestima da nossa espécie, os homens não são o George Clooney”. Enquanto eu anuia mentalmente – haverá homem mais próximo da perfeição ?- o P. pergunta: “já viste isto ?”. “Isto” era o passaporte da Matilde caducado há um mês. Upssss. As malas estão feitas e voo marcado para sexta-feira.

O P. – capaz de discorrer sobre a equação de Bernoulli ao jantar, que planeia rigoramente as férias em tabelas excel, mas a quem falta todo e qualquer sentido prático – histérico estilo adolescente que falhou o concerto do Bieber. Um caso perdido. É um falso pressuposto pensar que a humanidade se divide entre os homens-racionais e as mulheres-emocionais.

Adiante. Inspira. Expira. Recorro ao santo padroeiro dos aflitos: o Google. Descubro que existem passaportes temporários. Quinta-feira, de miúda a tiracolo, faço-me à estrada a caminho do Consulado de Düsseldorf, onde havia estado há alguns dias atrás (no dia da greve geral em Portugal). Faço o percurso a velocidade de caracol, rogando pragas aos holandeses, que nesta altura do ano invadem as estradas alemãs com as suas autocaravanas. Começo a acusar a falta de cafeína. Reconcilio-me com a vida a ouvir as anedotas contadas com proverbial nonchalance pela Matilde (se a professora dela sonhasse que é a personagem principal).

Três horas e cento e cinquenta euros mais tarde saio do Consulado com o documento na mão. Um passaporte de capa azul, escrito manualmente por uma funcionária simpatiquíssima, prestável, porém com pouca habilidade para colar a folha autocolante transparente que protege os dados pessoais e a fotografia. “Será que não vão pensar que isto é uma falsificação?”, questiona a minha filha. Ohmmm. “Que pergunta mais tonta, querida”, digo num exercício de autoconvencimento. Aí que as férias ainda não começaram e já estou à beira de precisar de férias das férias. O não acontecimento é a essência das férias, já dizia o Drummond.

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2 thoughts on “As férias ( ou porque estou mesmo a precisar delas)

  1. De Bonn a Duesseldorf há múltiplos comboios, que são bem mais rápidos do que o carro. E as crianças adoram andar de comboio.
    Evitava andar a dizer mal dos holandeses. Se havia bicha na estrada, era tanto culpa deles como sua.

    Gostar

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