Moras em mim

Quantas vezes repetimos: “temos tempo”? Nos esquecemos de celebrar cada manhã como se fosse única? Num repente, aquele pedaço de nós para o qual não há suplemente faz as suas escolhas –  são elas que contém o princípio da felicidade – procura ampliar a vida. Ousa partir.

Aos 17 anos querida decidiste escrever a vida com maiúsculas e o maior lenitivo para esta espécie de melancolia de te ver tão longe de mim é o orgulho que tenho nessa tua maneira de ser particular. Não nos despedimos, nunca nos despedimos. Trocamos um olhar de cumplicidade inquebrável.

Vou repetir-me Joana. Sente as minhas as palavras como carícias no berço.

Quando  nasceste  a casa encheu-se de riso e suavidade. Rias com gargalhadas claras como a água, tão contagiantes que de ti diziam ser um raio de sol. Tinhas olhos que pareciam estrelas douradas debaixo do céu da cabecinha loura. Embalava-te com poemas. Lembras-te? Dizia-te assim:

“Esta menina

tão pequenina

quer ser bailarina”.

Desafinava-te baixinho cantigas de “nanar”.

Choraste no primeiro dia do Kindergarten. Apertaste-me a mão com força. “Não vás embora Mami”. E eu de coração apertado, pequenino, dava-te um abraço. “ A mami tem de ir trabalhar querida”. Lembras-te Joana do álbum que fizemos com fotografias nossas e que levavas no bolso?

Quando voltavas para casa contavas-me histórias e eu cansada de um dia longo de trabalho deixava-me embalar pela ternura da tua voz. Depois brincávamos com as pedras de todas as cores e feitios que tu coleccionavas e escondias atrás dos cortinados. Ou com os legos.

Olhavas para vida cheia de curiosidade, respirando o seu perfume.“Mami, há tantas coisas que eu não sei. Explica-me”. E eu explicava.

Lembras-te Joana como te ensinei a rezar antes de saberes ler? E da nossa oração?

No primeiro dia de aulas foi como se cortassem o cordão umbilical. Fiquei a ali a ver-te, a andar em passos miudinhos, mas determinados para a sala de aula. Aprendeste depressa a ler e em vez de ser eu a contar-te histórias foste tu que começaste a lê-las para mim.

À medida que ias crescendo descobri que ser mãe é procurar em vão na gaveta as meias de desporto novas que ainda ontem lá estavam. E descobrir que a minha mala, aquela  que ficava tão bem com a roupinha de hoje foi “requisitada”. Ser mãe é dizer vezes sem conta  “vai arrumar o teu quarto”. E ter a casa cheia das tuas amiga. Ser mãe é enviar-te mensagens pelo Facebook para desceres para jantar. E ter estacionados na sala os patins em linha e o skateboard. Ser diplomada em pastelaria e animação de aniversários. E chorar quando fazias solos no coro, quando tocavas na orquestra, quando fazias uma peça de teatro.

Lembras-te quando ficaste doente? Tu do lado da dor, eu do lado da impotência. Querida talvez um dia entendas o que sente um coração de mãe quando um filho sofre. Consolei-te com a força do desespero e convoquei todos os anjos da guarda.

Joana, gosto de pensar que haverá sempre algo que escapará ao conhecimento dos homens, por mais que me espante com a Ciência. Mesmo que descodifiquem a genética e façam aviões voar serão incapazes de traduzir a poesia contida no amor do olhar de uma mãe.

Querida, desejo que a tua aventura no Brasil – longe das asas de A380 da mami –  seja enriquecedora e que encontres sempre uma luz que atravesse as noites de excessiva treva. Que Deus te abençoe.

Moras em mim.

JMJ-Rio-20132

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4 thoughts on “Moras em mim

  1. Helena, o teu texto emociou-me muito. Já não é o primeiro que me emociona mas é de facto o mais forte até o momento. Moras em mim é um concentrado de amor materno. Fica bem e continua com os teus posts inspiradores. Bem hajas pelas tuas palavras.

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