Basta chover estamos noutro país

HBH

São 12.00, o céu é uma almofada de nuvens cinzenta esverdeada, rasgada por relâmpagos. Se houvesse um cheiro a trópicos poderia ser a Guiné na época das chuvas ou a Índia nas monções. A minha imaginação pára assim que me lembro que a Matilde foi de bicicleta para a escola e que tinha combinado com uma amiga ir à piscina depois das aulas. Planos incompatíveis com o nível máximo de alarme para tempestade. Aviso na rádio que vou buscar a miúda à escola. Telefono à mais velha. “Mami não podemos deixar o edifício,  o pátio está cheio de água, a cantinas estão inundadas e o Frau Heine (a directora) está muito nervosa”. Não consigo contactar a mais nova. Respiro fundo.

Deixo a garagem. Aninhada no conforto dos estofos navego pela Avenida Petra-Kelly, que  desapareceu sob o peso das águas, é um rio. Por trás dos vidros, como quem está sentada na primeira fila de um filme,  sinto-me dentro de uma máquina de lavar automóveis ligada na máxima potência. E eu sem radar. As árvores dançam no Inverno de Junho. Sopra um vento bravio como o das costas da Irlanda. Há muitos carros parados com receio de avançar. Ouço sirenes.

Navego, deslizando com cuidado. Tento tranquilizar-me pensando que conduzo um todo o terreno preparado para as condições adversas do deserto e das florestas tropicais. Um capricho que se tem revelado muito útil. Quase a chegar à escola vejo condutas de esgoto levantadas, verdadeiras fontes. Estaciono. O riacho no pátio da Beethovenschule ganhou dimensões assustadoras, salta das margens com uma alegria de liberdade. Perdi a pretensão de me molhar o menos possível, com os pés mergulhados em água, splish, splash, e  metamorfoseada em “miss casaco molhado”, só quero chegar depressa à Matilde. “Mami que bom que me vieste buscar. Estava com tanto medo”. Abraço-a e falamos de estreitos, navios afundados e piratas. Largamos amarras para a escola da Joana. A Königsplatz, mais à frente, é uma lagoa, os passeios deixaram de o ser. Impossível entrar na escola, impossível ela sair. Por instantes o antigo mosteiro, onde  fica a escola, é uma uma terra expulsa do tempo.”Não sais daí  e fica com telefone ligado. Eu vou buscar-te logo que possa”.

Ouço na rádio que a Hauptbahnhof de Bona está inundada, que parte do tecto de um grande armazém comercial deslizou, que vários túneis estão cortados, que a minha rua está intransitável. Preciso de quase uma hora a percorrer um percurso que demora habitualmente  cinco minutos. A rua perpendicular à onde moro está plena de água. Faço uma brevíssima análise de risco, com o desconforto da desconfiança a latejar-me na cabeça decido arriscar. Uns miúdos da janela filmam as paredes de água que levanto ao empurrar aquele Tejo em latitude errada. Ao virar da esquina flutuam caixotes do lixo e os vizinhos, de galochas, tentam evitar que a água, que já escorre para as caves, entre dentro de casa. Unem-se forças e partilham-se baldes. Como a minha casa fica no final da rua, numa zona ligeiramente mais elevada, tive a sorte de ter apenas umas poças de água na cave. Pergunto à minha vizinha se está tudo bem com ela. “Tenho tanto receio pelo meu piano”. Que outra coisa esperar de uma família de músicos? No rosto dela cavava-se uma palidez que não lhe conheço.

Penso nos milhares de alemães vítimas das inundações no Leste e no Sul da Alemanha que viram as existências arrasadas pela água nesta Primavera.Vidas intersectadas pela água no espaço e no tempo. Gravou-se-me na retina a fotografia de uma mulher jovem, que perdeu tudo, com uma criança ao colo, olhando para a objectiva de frente, com dignidade, interpelando-a, interrogando-a. Parece perguntar: com que direito a vida me fez isto?

Imagino o que seria perder os livros ou as fotografias da família espalhadas pela casa. De todos os medos, chamam-me rídicula, este é o que  me devora.

Poucas horas depois a Joana telefonou-me. Já não havia água na escola graças aos incansáveis bombeiros, com o auxílio de bombas o rio castanho secara. Olhei pela janela. Lá fora, céu azul, e um fim de tarde cheio de brandura e calmaria. Ainda ouço sirenes e ainda há zonas de Bona inundadas. Através da parede chega-me o som de um piano. Evitei (evitamos) o fio do acaso e esta fonteira é tão ténue.

tunel

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8 thoughts on “Basta chover estamos noutro país

    1. Estou consciente da tragédia indiana e também sei que na Índia não existe a infraestrutura alemã, nem uma sociedade funcional e solidária.

      O facto de vivermos de perto uma experiência (ainda que numa escala muito inferior) reforça a nossa capacidade de empatia.Era só e apenas isto o que queria transmitir.

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  1. Mãe leoa, como a entendo 🙂 Aliás, acho que o seu ascendente é leão (o meu é) 🙂 Um relato inusitado mas tão bem escrito que, apesar de tudo, foi aprazível ler… É uma belíssima narradora, como já deve saber.:)

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