Carta a M.

A única pergunta fazer nestes dias parece ser: é infeliz? Se é pode estar tranquilo. Se não é, aconselha-se a começar imediatamente um programa intensivo de infelicidade, rever Doutor Jivago, de David Lean, folhear a biografia de Clarice Lispector , ler “Sábado à Noite e Domingo de Manhã”, Alan Sillitoe, que retrata a vida infeliz das classes operárias inglesas, com muito adultério e álcool  à mistura, e passar os olhos por esse kamasutra da infelicidade que são as crónicas de opinião publicadas na imprensa portuguesa.

O ser infeliz tem conjuntura alta e uma campanha de imagem muito forte. A ideia de infelicidade é desesperada, extrema, um tsunami que arrasta, uma via única. A infelicidade anula a escolha, desresponsabiliza e por isso é confortável. A infelicidade torna-se uma segunda pele, como o sofá e os chinelos. Há quem seja viciado no “coitadinho”, no tom expiatório da vítima. Incapaz de se desintoxicar, há quem se esqueça de viver. Ficando à espera de uma deusa celebrada e muito esquiva chamada alegria. É tramada a solidão dos infelizes.

Ontem telefonou-me alguém de quem gosto e com quem já não conversava há muito tempo. “ Você deve ser a pessoa mais feliz do mundo”, dito com um tom levemente  irónico.

Querida M., não sou.

Querida M, a minha vida não é, não foi mais fácil do que a de ninguém. Nem é um estado zen permanente.

Nasci num país em guerra. Quem nunca esteve numa guerra dificilmente tem uma imagem suficientemente vívida do pesadelo. E dificilmente compreende a dificuldade em encontrar palavras que dissolvam a sombra que se instala, o insuportável, o combater sem saber porquê. Até hoje o meu pai emudeceu os anos no mato. Engoliu-os, torturando-se por dentro. A Guiné privou-me de pai.

Cresci num país que é o meu de passaporte e gramática, porém onde nunca me senti em casa. Troquei-o pela minha “pátria afectiva”, pelas viagens. Sei o que são dificuldades económicas. Aprendi por tentativa e erro, com mais ou menos escoriações. Fui traída. Escapei por um cabelo a uma tentativa de violação. Sou gorda.

Tive amores infelizes e dores de parto. Passei noites sem dormir com as filhas nos cuidados intensivos. Quando elas estão tristes sinto o sal na ferida. Somos lua e maré.

Levanto-me muitas vezes de madrugada, com temperatura negativas de dois dígitos, para estar na rádio. Trabalho muito mais do que oito horas por dia (ah miragem). Carrego malas pesadas, coletes à prova de bala e satélites. Vejo demasiadas vezes de perto a dor, a miséria, o pior do ser humano e luto para manter a capacidade de me comover, de empatia. Sei que a linha entre a blindagem e o sentir é demasiado ténue.

E é tudo isso que me move a agarrar a vida, a esculpir a felicidade com o afinco, não o talento, de um Leonardo. Tento ter a coragem da alegria. Faço dela um método. O prazer de viver, da descoberta e do encantamento é uma disciplina.

Tento olhar os dias inspirada pelas palavras desse sábio  que é Vinicius de Moraes. Que cada instante (como o amor)“não seja imortal, posto que é chama/ mas que seja infinito enquanto dure”. Esse infinito, não é o da matemática, mas o da vida, feito de rupturas, vertigens, sujeito  a intempéries.

Exijo passar pela vida e não que ela passe por mim. Impossible is Nothing.

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14 thoughts on “Carta a M.

  1. Com 3 anos conheci o meu pai, imaginem onde estava (ultramar) com 5 fui pra Angola (1971) , conheci a guerra. Minha mae tapava as janelas com colchoes pra que nos proteger das balas perdidas e meu pai como era militar aparecia as vezes em casa pra jantar.Aprendi escola primaria a nao mexer nas granadas, bombas, explosivos etc. Aprendi a posicao pra me proteger em caso de explosao. Vi coisas que so em filme voltei a ver. Sao memorias que nao se apagam. Regressei evacuado na ponte area entre Luanda e Lisboa com 9 (1975). Chegado a Lisboa onde fique 4 anos , mudei me para Peniche, onde vivi 4 anos, regressei a Lisboa onde vivi 6 anos e estudei. Em 92 conheci a Alemanha, regressei a Portugal sempre com a Alemanha no pensamento. Regressei em 2001 e ate 2011 visitei pelo trabalho cerca de 30 paises Vi a India pobre onde a vida nao tem mais valor, passei por Africa, pela Amerca Latina . Regressando sempre ao meu porto seguro aprendi a ver os meus problemas como muito pequenos comparados aos problemas de 90 % da populacao mundial. Em 2011 decidi ir pra Mocambique. Ai matei saudade de Africa, desse continente e desse povo e mais uma vez aprendi a valorizar o que tenho . Passado um ano regressei a Alemanha onde vou ficar ate á proxima viagem, quem sabe…Vivo a vida, dia a dia seguindo em frente mas tambem olhando para os lados, Cada dia aprendo, sobre o ser humano, sobre a sociedade, sobre as coisas e as coisas complicadas. E cada dia valorizo mais aquele por do sol no mar, aquele olhar sobre o mar, o cheiro do sal e ruido das onda. Gosto de viver ainda que nem sempre viva como gosto. Luto e continuarei a lutar de cabeca erguida ….. a vida merece isso ….a vida merece a luta….
    obrigado pelas suas palavras Helena. e senhora M, existe no mundo muita gente que está passando pior que a senhora pode ter a certeza…

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  2. Belissimo,querida Helena.
    Palavras sentidas.
    A vida não é fácil.
    Mas ser feliz,agarrar cada momento de felicidade cabe a cada um de nós.
    E passar essa ideia de « ser infinita enquanto dure » às nossas crias.
    Um beijinho.

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  3. Irretocável o seu post, Helena. Tocou bem fundo dentro de mim, gostari muito de ter sido eu a escrevê-lo. Não me refiro à sua vida, óbvio, cada um tem a sua, isso é intransmissivel. Refiro-me à clareza da mensagem, à forma como colocou no lugar a felicidade e a infelicidade. Porque quase sempre, há quem diga que sempre, ser feliz ou ser infeliz é uma opção. E nem é preciso dizer porquê, todos o sabemos, a vida está aí para nos mostrar, todos os dias . É necessário muito mais coragem, muito mais mão de obra, tout-court e emocional, muito mais despojamento a todos os níveis, muito mais entrega, muito maior exigência a nós próprios para nos batermos contra a facilidade que é ser infeliz. Há uma psicóloga e escritora brasileira, colunista do Globo, Martha Medeiros, que entre outras coisas escreveu “Feliz por nada”. Porque é que eu só sou feliz se … ? E cada vez juntamos mais ses, sem dar conta que a felicidade, ou o desejo dela, tem que estar dentro de nós. É isso, “o desejo dela”. Obrigada pelo post, boas viagens!

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    1. Fátima, gosto muito da Martha Medeiros. Não conhecia esse texto dela, porém o excerto que escolheu é fantástico. Acumulamos “ses” e esquecemo-nos de largar a amarras rumo à vida.

      Deixo-lhe um poema dela

      De cara lavada – 177

      hoje me desfiz dos meus bens
      vendi o sofá cujo tecido desenhei
      e a mesa de jantar onde fizemos planos

      o quadro que fica atrás do bar
      rifei junto com algumas quinquilharias
      da época em que nos juntamos

      a tevê e o aparelho de som
      foram adquiridos pela vizinha
      testemunha do quanto erramos

      a cama doei para um asilo
      sem olhar pra trás e lembrar
      do que ali inventamos

      aquele cinzeiro de cobre
      foi de brinde com os cristais
      e as plantas que não regamos

      coube tudo num caminhão de mudança
      até a dor que não soubemos curar
      mas que um dia vamos

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  4. Muito obrigada por este texto. Tomei a liberdade de levar um excerto – há palavras que nos surgem na hora certa, as suas ecoam em mim desde ontem e têm-me ajudado a tomar decisões que há muito deveriam ter sido tomadas.

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  5. Que beleza de texto… Acabei de o partilhar no FB. Sabe o que disse? “gosto desta mulher” 🙂 Parabéns por ser assim verdadeira, luminosa, brava, sensível. Beijinho doutra que não é magra 🙂 🙂

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