Ataúro Express

P1010128O plano era simples. Passar o fim de semana em Ataúro, ilhéu-prisão onde se fechou o ciclo colonial português em Timor-Leste, com a partida do último governador Lemos Pires, em Setembro de 1975, a bordo do pequeno Manatuto. Paraíso hoje, ontem chão de desterrados de Salazar e de Suharto.

Comprado o bilhete para o Berlin Nakroma, navio oferecido pela Alemanha, dirigimo-nos para o porto de Dili. Ao longo do passeio acumulam-se os viajantes. Panorâmica geral: galos, caixotes, sacos de lenha, jerricans de óleo, um bazar de coisas e de gentes. “Há uma avaria técnica, o Nakroma não faz a travessia hoje”. Episódios como este acontecem com uma assiduidade infalível no cálido encantamento tropical timorense tornando o improviso numa instituição Recusando ficar em doca seca procuramos uma alternativa: uma embarcação privada. Com capacidade para 30 passageiros e uma lotação de cabeças, entre malais e timorenses, que correspondia talvez ao dobro. Welcome to Timor.

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Para enganar o medo do mar a minha amiga G. escutava a gramática imperfeita de um velho timorense, de semblante belíssimo, atlas da geografia da vida, enquanto eu mergulhava na dádiva do azul horizonte, fusão de mar e céu. Esmagada em tanta beleza de mar, sentido o roçar dos respingos de água salgada na boca como beijos, fui despertada do torpor pelo silêncio. Paramos. Não porque tivéssemos chegado ao ancoradouro de Beloi, mas porque houve um problema com os motores. Ataúro à distância de umas braçada largas, a embarcação, minúscula, balançando perigosamente na zona onde as correntes marítimas são mais fortes. Quase a história de um amor antes de o começar a ser. A proa sobe e desce, cai para a esquerda, para a direita. Felizmente os minutos de susto foram breves.

Lançada a âncora, soube bem mergulhar os pés na água turquesa, tépida, e transportar a bagagem até à praia. Entre timorenses e malais mochileiros, havia uma malai dissonante: a única com uma mala de cabine (lilás). Antes que se desfaçam em riso, eu explico: este fim de semana não estava previsto na minha agenda germânica, logo não tinha mochila. Ohmmmm.

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Da praia seguimos para o local onde ficaríamos hospedadas, a guesthouse ecológica de Manucoco, em Vila. Um projecto da Missão Católica local que conseguiu não apenas criar emprego, como introduzir conceitos ambientais e de sustentabilidade, e, feito não menos assinalável, ter um restaurante italiano, com mesas cobertas por panos coloridos, que serve gnocci e pasta artesanal (cozinhados a lenha) maravilhosos. Só vos digo: uma benção, uma benção.

O trajecto entre Beloi e Vila (Maumeta) é feito por “tigarodas”, aka tuc-tuc, isto é, pequenas motorizadas de caixa aberta onde foram colocados bancos, mais ou menos improvisados. Dois dólares por pessoa, sem capacete. A incomodidade das sacudidelas da “estrada” é largamente compensada pela generosidade da paisagem. Os lápis de cor da natureza declinam-se aqui em tonalidades de verde, de azul e salpicos de cores vivas das buganvílias, tão perfeitas que parecem falsas.

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Espera-nos em Manucoco uma “tenda” de paredes de knia entrançada e telhado de folha de acadiro, cama de madeira tosca e o luxo único de uma rede mosquiteira. O banho é de caneca, a casa de banho de composto e a luz eléctrica é desligada antes da meia noite. Rewind para as raízes. Estado de graça.

Num grito cheio como a vida a chuva intensa cai sobre a “tenda”, o meu eu citadino teme a invasão das águas, porém nem uma gota atravessa o nosso frágil abrigo. A noite negra, uma capulana de estrelas, sem a perturbação do “progresso” fez-se da canção de embalar do mar, do canto dos galos e das risadas adolescentes de duas amigas separadas há quase uma década e que, por um daqueles acasos que fazem da vida um lugar fantástico, coincidiram em Timor.

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Em frente ao Manucoco (o nome da guesthouse foi inspirado no do pico mais alto de Ataúro) fica o local onde são feitas as célebres bonecas de Ataúro. Nesta oficina de mulheres produz-se artesanato (não apenas as bonecas de pano) que faz a ponte entre a cultura tradicional timorense e peças modernas. Não me lembro de ver tantas carteiras de tecido tão bonitas de um fôlego. Nota mental: ainda bem que não aceitam cartão de crédito.

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Quem visita Ataúro fá-lo para mergulhar, para desfrutar da praia que parecem saídas do começo do mundo ou pelos passeios de barco com pescadores locais. Se o lixo (e já começa a haver algum, principalmente plásticos) não alastrar e com algum investimento em infraestruturas, a ilha poderá tornar-se num paraíso de ecoturismo, a duas horas de barco da desgastante Dili. Em Ataúro sorri-se mais do que na capital e apesar da pobreza extrema, os quintais são limpos, têm flores, há mais organização e sente-se a hospitalidade, o traço de gentileza da cultura asiática.

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No regresso a Dili o sol queima, nem o vento o atenua. A luz ofusca reflectindo-se na água. Do convés do Nakroma – que reparada a avaria retomou a travessia, verdadeira arca de Noé – observo os peixes voadores e procuro, sem sucesso, avistar baleias.

Depois de duas semanas de trabalho muito intensas física e emocionalmente com os jornalistas da rádio e televisão da RTTL – onde se falou de violência, trauma, massacres, justiça – Ataúro, com o seu mar turquesa e montanhas altivas foi um bálsamo.“Já não é possível dizer mais nada / mas também não é possível ficar calado”, diz-se num poema Manuel António Pina. É isto.

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6 thoughts on “Ataúro Express

  1. E bem que eu mergulhei.. nesta belíssima narativa que cheira a distância e mar. Que bem, que bem escreve, Helena. Estes relatos de viagens podiam ser capítulos de grandes e bons romances. (novels) 🙂 Está aqui tudo. 🙂

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  2. Luís Lavoura há vários motivos para o afirmar. É uma cidade que não está dimensionada para o número de habitantes, o trânsito é uma loucura ( é impressionante o número de acidentes diários), tem vários dos problemas comuns a cidades de países em desenvolvimento ( falta de saneamento, muito lixo, miséria atroz) e nela coexistem dois “mundos” , o dos “internacionais” e classe média-alta timorense e o da esmagora maioria dos timorenses. Apesar da aparente “normalidade” todos os ingredientes que provocaram anteriores episódios de violência continuam bem presentes.

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