A recém…política

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Com uma lentidão cirúrgica observou o rolo de tecido amarelo. Depois descaiu o olhar para um casaco e umas calças riscadas de tecido grosseiro. Fez um rosto fechado, de inverno puro. Instintivamente apertou-me a mão com força. Agitava-se nela um sentimento. Talvez medo, talvez incompreensão. ” Mami, aquelas estrelas amarelas de tecido com a palavra Jude são verdadeiras? As meninas como eu também as usavam? Explica-me”. Como explicar os vagões de mercadorias cheios de meninos, mulheres, homens, cerrados entre um corpo e outro, em viagem para o nada? E o cais de selecção? O desespero de não dizer adeus? “Explica-me”. Falo-lhe devagar do significado de Häftling, do número tatuado no braço, do rapar das marmitas, do não desperdiçar as migalhas no chão, das pulgas nos catres, das socas de madeira na neve. Pediu-me para vez sozinha as fotografias. “Tens a certeza?”. “Tenho”. Corpos escavados pela fome, pela fadiga, pelo pesadelo nazi. Empilhados como molhos de lenha. Uma tácita convenção impõe que eu não quebre o silêncio antes dela. “Anne Frank morreu assim?”. “Sim querida”. “Isto não mais vai voltar a acontecer, pois não Mami?”. ” Não. Nie wieder”. “Temos de estar atentos”, diz-me baixinho. Disfarço mal a comoção.

Continuamos o percurso pela Haus der Geschichte, o museu de História de Bona e um dos mais importantes legados do chanceler Helmut Kohl. Paramos no Bundestag. O mobiliário original do primeiro parlamento alemão do pós-guerra está aqui. Sobe ao púlpito e pede-me para tirar uma fotografia. Ao almoço, depois de visitarmos a queda do Muro e a reunificação, comeu sem pressas, mastigando com lentidão. Cogita. “Tu sabes que eu não vou ter filhos, não sabes?”. “Sim, Matilde?”.” E também já não vou estudar baleias para o Alasca com a tia”. “E?”. ” Decidi uma coisa hoje”. AIAMINHAVIDA.”Sim?”. “Como não quero ter filhos tenho todas as condições para ser política, como a Merkel”. “Aaah?”. ” Ela não é a mulher mais poderosa do mundo? E não pode decidir sobre guerra e paz? Pois eu quero ser política para que nunca mais haja guerra. E vou ser dos Verdes”. Mãe em hiperventilação. Pensar que eu aos nove anos sonhava ser a Wonder Woman.

PS- A propósito de Nie Wieder e do cinísmo da que pensar este post no A Origem das Espécies

 

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2 thoughts on “A recém…política

  1. os vagões de mercadorias cheios de meninos, mulheres, homens, cerrados entre um corpo e outro, em viagem para o nada? E o cais de selecção? O desespero de não dizer adeus?

    Isto é muito semelhante à forma como se tratavam os escravos africanos.

    Eram carregados para outro continente dessa forma – em porões de navios, apertados uns contra os outros, com falta de ar – e à chegada eram separados, filhos para um lado mães para o outro.

    Por comparação, os judeus transportados para os campos da morte até eram melhor tratados, diria eu. As viagens demoravam muito menos tempo, os vagões eram mais arejados do que os porões dos navios, e os filhos não eram separados das mães.

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  2. Sim! Sim! Isso mesmo. Os transportes para os campos da morte eram muito humanos e dignos. E os meninos nem eram postos a trabalhar, nem nada. Iam logo para a câmara de gás, porque os nazis achavam que o trabalho infantil era uma selvajaria do tempo da escravatura, e nem pensar em cair tão baixo como esses portugueses horrorosos dos séculos XVI, XVII e XVIII.

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