A epifania do jardim alemão

Comecemos pelos números: 49 por cento dos lares alemães têm jardim e anualmente gasta-se na Alemanha em plantas e  produtos para jardinagem 14,9 mil milhões de euros (valor que seria suficiente para equilibrar o défice grego). Levantou a sobrancelha? É caso para isso porque o assunto “Jardim” é sério, muito sério. Diria mesmo uma ciência.  Querem exemplos ? Faça-se um breve pesquisa no Google e fica-se abismado com o número de blogs e comunidades dedicados à jardinagem, isto para não falar das revistas especializadas que competem em número com a imprensa desportiva. Na última edição o Die Zeit dedicou 4 páginas (!) a uma entrevista com um professor de arquitectura paisagística.

Há quem pague 20 mil euros por uma árvore na Baumschule (“escola de árvores”, viveiro no qual se podem comprar árvores jovens) ou cerca de 200 por umas galochas de jardim, há quem se divorcie por causa das diferentes concepções paisagísticas  e há passe horas a debater com o assistente do Gartencenter a espécie de rosa mais adequada (eu pecadora me confesso).

Mal o calendário assinala a Primavera, há um botão em cada alemão que acorda a Landlust : é vê-los a aproveitar o frische Luf  (mesmo que este seja  bem geladinho como é o caso este ano) com os olhos redondos e abertos de felicidade  a limpar canteiros, plantar espécies anuais ou as clássicas Stiefmütterchen ( “madrastinhas”, em português amores perfeitos), arejar a relva, descompactar o solo e claro eliminar ervas daninhas. Ordnung muss sein.

O mundo da jardinagem alemã divide-se em duas categorias: os que têm (arggg) anõezinhos de jardim, os célebres Gartenzwergen, que na versão kitsch  pós-moderna são budas, e os que nem mortos (eu, eu) poriam tal coisa no jardim.

Como em tudo na Alemanha também para o Gartenzwerg há normas. Chocada com a pouca vergonha que era exibida em alguns relvados germânicos a Justiça resolver intervir: anõezinhas de nádegas de fora, masturbando-se ou mostrando o dedo médio?Inaceitável! O tribunal de Grünstadt, em 1994, proibiu anões que atentem contra o pudor ou perturbem a paz entre vizinhos ( a maioria dos processos nos tribunais alemães são resultantes de disputas entre vizinhos). Ou seja, o  verdadeiro anão de jardim alemão tem no máximo 69 centímetros de altura, barba, gorro vermelho, avental de couro, um ar  caloroso e pode exibir  cândidos instrumentos de jardim, uma lanterna ou legumes insuspeitos.

PS-Este texto é um efeito colateral de olhar pela janela. Eu explico: enquanto  me encolho junto ao aquecimento e tento trabalhar vejo a minha vizinha de joelhos debruçada sobre  seus os canteiros. Estou à espera da minha epifania, mas ela como a Primavera tarda em chegar.

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9 thoughts on “A epifania do jardim alemão

  1. É difícil por terras lusitanas conceber “isso”; ter um jardim é status social ou sinónimo de muito trabalho. Já uma horta, é coisa lá da aldeia. Mas toda a gente acha giro quando se avistam umas poucas que pululam por Lisboa. O meu pai bem que me dizia “tens que vir ver o nosso garten” (é assim que se escreve?), e eu não consegui explicar por cá, que consistia numa quantidade de hortas pequeninas, seguidas e alugadas, num espaço como o de um campo de futebol, com uma casinha tipo T0, onde o pessoal alegremente faz umas patuscadas ao fim de semana. Curiosamente também não consegui explicar à Gabi, que a minha quase-esposa, de tanto recolher animais abandonados, fundou uma associação. Gente diferente, embora perto. O mais parecido que encontrei com os gartens, foram as dachas russas! (http://en.wikipedia.org/wiki/Dacha)

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    1. Aqui temos um tema onde se exprime as mentalidades de um povo. A ligação dos alemães perante a natureza é mágica e de entrega total. Daí resulta a saudade profunda de ligação emocional com a natureza. O quintal ou o jardim à volta da casa é uma segunda habitação, é uma segunda sala, é lugar de investimento e de lazer, resulta do insconciente e ganha contornos de uma dedicação total. É a vontade de regressar ao paraíso de Eden.

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    2. O Nuno refere-se aos Schrebergarten. São um fenómeno interessantíssimo. Tem regras próprias ( ou não estivéssemos na Alemanha) e possibilitam a quem não tem jardim em casa o contacto com a natureza. Tem razão quando diz que é difícil explicar o conceito por terras lusas.

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  2. Se a minha epifania não vier, deixe lá que a senhoria não se esquece de aparecer 🙂
    Enviei-lhe um email com uns jardins frísios que fui “coleccionando”…
    Espero que se divirta com os anõezinhos, cabras, moinhos, gansos, corças, patos, sapos, casinhas de passarinhos, cestos de flores frísios, “Strandkörbe”, and so on…
    🙂

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  3. Tenho a sorte de poder ter um jardim e uma horta. Este fim-de-semana, finalmente, há sol (e frio): espero poder trabalhar neles um bocadinho. Serei alemã? 😉

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  4. Ahhh, mt bom 🙂 Um efeito colateral que já me fez rir e não. Os anões fizeram-me rir. Já o resto … hmuum. Beijos primaveris (já agora o meu jardim não é alemão. Entende? Falta de muita coisa…)

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