Suplemento para compreender a Alemanha*

A Alemanha actual já não é a Alemanha do tempo de República de Bona. É a Alemanha que passou pela reunificação e por um difícil processo de reajustamento económico e de reformas estruturais que lhe permitiu reassumir o papel de locomotiva económica da Europa. Antes, a Alemanha era “ocidental, europeia e alemã”, por esta ordem. Agora é “alemã, europeia e ocidental”.

Olhando-se para a história da construção europeia é raro identificar um “momento unilateral” como o actual, em que a Alemanha esteja, por um lado, aparentemente, tão isolada no seio dos seus parceiros, e, por outro lado, em simultâneo, seja a potência central europeia ou a “potência indispensável”, na expressão cunhada pelo historiador britânico Timothy Garton Ash. Estes são os factos: sem ela ou contra ela nada se pode fazer na Europa e será com ela que se irá decidir o destino da moeda única. De bom grado, muitas nações europeias, e não só do Sul da Europa, dispensariam esta evolução. Seria no entanto hipócrita não reconhecer que, seja por boas ou péssimas razões, a Alemanha é o único país dos 27 onde se trava um verdadeiro debate europeu. AÖkonomenstreit é mais do que um brainstorming intensivo ou uma discussão académica entre economistas pró e contra o euro. Trata-se um verdadeiro confronto político que definirá a relação entre a Alemanha e a Europa e, por conseguinte, o futuro do projecto europeu.

Tomemos a análise do alemão Kurt Tucholsky, escrita no início do século passado, como ponto de partida: “nada faz os alemães perder tanto a compostura como quando se tentam encontrar a si próprios”. Para se compreender a política externa de um país é preciso analisar as suas estruturas internas. Essencial também, para um debate sereno e não histérico sobre a República de Berlim, é tentar entender o ponto de vista alemão observando as profundas transformações pelas quais o país passou e passa desde a noite mágica de 9 de Novembro de 1989.

Ameaçadora vista de fora, frágil vista de dentro

 Os nostálgicos da República de Bona tendem a esquecer que, se a Europa mudou com o final da Guerra Fria – o alargamento da União Europeia e o euro são corolários dessa metamorfose –, a Alemanha fê-lo também, e de forma brutal. Convém ter isto presente quando se fala de “egoísmo” ou se esgrimem argumentos de incompreensão no momento em que a chanceler Angela Merkel recusa eurobonds ou defende a austeridade como receita para evitar a “irresponsabilidade financeira” dos países do Sul.

O impacto da reunificação provocou mudanças tectónicas no sistema político, na economia e na sociedade alemã. Percepcionada do exterior como nação forte e mesmo ameaçadora – acordando nalgumas mentes o receio de um Sonderweg –, vista do interior ela é bem mais frágil.

Enquanto a República de Bona, assente no modelo do capitalismo renano e da economia social de mercado, tinha um sistema político orientado para o consenso, uma redistribuição equilibrada da riqueza, boas escolas públicas e um excelente sistema de saúde, a Alemanha da República de Berlim é um país mais pobre, envelhecido e que enfrenta inúmeros problemas sociais, da imigração ao sistema de ensino, mais do que aqueles de que gostaria.

Mais: as paisagens floridas na Alemanha do Leste, uma promessa do chanceler da unificação, Helmut Kohl – apesar de casos de sucesso como Dresden, Leipzig ou Jena –, não se materializaram e, mesmo na metade alemã ocidental, há muitas regiões e cidades perto da insolvência. A redistribuição com o Leste e a decisão de igualar moedas, salários e benefícios entre as duas Alemanhas minou a competitividade económica daBundesrepublik.

Pesadíssima, a factura da reunificação levou o país a desrespeitar temporariamente os critérios da dívida e do défice. Em 1999, a Alemanha era “o paciente europeu”, cognome atribuído pela britânica The Economist. Não teve alternativa senão reformar-se.

Como resultado das reformas estruturais, impulsionadas pelo chanceler social-democrata Gerhard Schröder e que lhe custaram a reeleição, contidas na Agenda 2010 – reformas que abrangeram o maior corte de benefícios e prestações sociais desde a Segunda Guerra, a flexibilização da lei laboral, facilitando os despedimentos, o alargamento da idade da reforma de 65 para 67 anos, a redução de subsídios à construção imobiliária, indústria e agricultura, e um acréscimo do investimento no ensino –, a Alemanha reassumiu o papel de locomotiva económica.

Simultaneamente, a conjugação destas medidas com um corte determinado da despesa pública e uma descida de impostos para empresas e privados tornou a economia alemã menos vulnerável a crises, como a crise financeira mundial que se seguiu ao colapso da banca norte-americana.

Nas duas últimas décadas o sistema político germânico fragmentou-se. Nenhum dos dois grandes partidos populares alemães, na sua essência europeístas, a União Democrata Cristã (CDU) e o Partido Social Democrata (SPD), seria capaz de conquistar hoje, numas legislativas, ao contrário do que sucedia no passado, 40 por cento dos votos. Verificou-se também um aumento do eurocepticismo nos liberais do FDP – o partido que foi do grande senhor da diplomacia alemã, Hans Dietrich Genscher – e o aparecimento de formações políticas abertamente antieuropeias, como o partido de esquerda Die Linke. Entre os pequenos partidos, apenas os Verdes continuam a apoiar a integração europeia com o mesmo entusiasmo de Helmut Kohl.

“O eurocepticismo tornou-se socialmente aceitável, senão mesmo chique”, escrevem Ulrike Guérot e Mark Leonard, do Conselho Europeu para as Relações Externas (ECFR). Estes investigadores defendem que existem na Alemanha políticos populistas que, em vez de salvar a moeda única, “gostariam de salvar a Alemanha da Europa”. Contra esta deriva populista, Angela Merkel e sua absoluta determinação em defender o euro são para Mark Leonard, director do ECFR, “a única esperança”. “A Alemanha é ainda o único país que podemos imaginar a ultrapassar os seus interesses a curto prazo para salvar a Europa da actual crise”, escreveu.

Neste quadro, os ataques grosseiros e insultuosos contra a Alemanha, os alemães e a sua chanceler, feitos um pouco por toda a Europa, reforçam na opinião pública germânica a percepção de estarem a ser “chantageados pelos países devedores”.

Olhar para fora do prato europeu 

Três catalisadores contribuíram para a emergência política germânica: o desequilíbrio no eixo franco-alemão, que deixou de ser o que Stanley Hoffman denominava por “simetria de assimetrias” (formado por uma Alemanha forte economicamente mas militarmente fraca e por uma França politicamente forte, mas economicamente débil); o vazio geopolítico subsequente ao definhar da influência soviética na Europa; e o desinvestimento norte-americano no Velho Continente. A crise da dívida soberana reforçou o estatuto deprimus inter pares da Alemanha. Se as crises redesenham os poderes, têm o terrível óbice de não seguirem um guião previamente definido nalgumas capitais europeias, o que explica muita da actual retórica antigermânica.

Uma leitura atenta dos títulos da imprensa alemã nos últimos meses não deixa dúvidas de que os alemães deixaram de pensar o seu futuro apenas em função da Europa. Cada vez mais Berlim forja coligações de interesses com os BRIC, que são um mercado significativo para os seus produtos. E fá-lo para assegurar a sobrevivência económica num mundo multipolar complexo.

Quando, no final de Agosto, Angela Merkel, se deslocou à China, fê-lo acompanhada por nove ministros do Gabinete Federal, para dois dias de conversações bilaterais. A viagem, que deveria ter lugar apenas no próximo ano, foi antecipada a pedido do primeiro-ministro chinês, Wen Jiabao, devido à crise da dívida soberana. “A crise parece ter levado os chineses a centrar a sua atenção na Alemanha, que é o único país, para eles, com uma palavra a dizer na Europa neste momento”, afirmou à AFP um analista alemão. A dimensão da comitiva que acompanhou a chanceler é sintomática da importância atribuída por Berlim a este país oriental. Do ponto de vista da balança comercial, muito em breve a China ocupará o lugar da França como principal mercado para as exportações alemãs, que duplicaram nos últimos três anos. A relação bilateral entre Berlim e Pequim funda-se numa crescente simbiose: a China necessita da tecnologia e do know how germânico e a Alemanha precisa do mercado chinês.

Todavia, o interesse alemão pela China vai muito para além das exportações: a China é um dos países com direito de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas, tendo um papel determinante na arquitectura da política externa alemã em matéria não europeia. Por seu turno, a China tem um interesse considerável na União Europeia e na moeda única e por isso adoptou um princípio da Realpolitik, o pragmatismo: “se queres obter alguma coisa de Bruxelas, é melhor passar por Berlim”.

Há vários anos que a Alemanha tenta sem sucesso que a União Europeia elabore uma política conjunta face à China. Na ausência desta, Berlim preenche o vazio. “A Alemanha está tentada a avançar sozinha. É a maior economia europeia competitiva globalmente, com uma estrutura social estável, com boas relações com a Europa de Leste e a Rússia e com uma reputação global devido ao facto de ser o maior exportador mundial de maquinaria”, explica Ernest-Antoine Seillière, antigo presidente da Business Europe.

Desencanto com a Europa?

 Significa esta orientação global um abandono da Europa? O argumento é mais subtil do que dizer que a Alemanha abandonou o europeísmo de Konrad Adenauer ou de Helmut Kohl e se tornou menos europeia. O europeísmo alemão persiste, e a “Alemanha considera a União Europeia, e a sua inserção nela, peça-chave da sua existência enquanto Estado europeu”, defende Patrícia Daehnhardt. Existem no entanto vários factores domésticos alemães que condicionam a sua política europeia. Cabe ainda dizer que Berlim deixou de ter inibições em associar a sua posição política europeia a exigências e garantias económicas e financeiras em prol da manutenção da estabilidade e da repartição dos custos que tal implica.

A Alemanha alcançou o estatuto de um “país normal”, como os restantes 26, e deixou de ser “sobre-europeísta” (este processo iniciou-se muito antes de Merkel, na legislatura de Schröder e Fischer). Sem se separar no entanto do legado de Konrad Adenauer e de Willy Brandt. “A nova Alemanha é uma democracia pluralista, embora a sua política externa tenha passado a ser ‘alemã, europeia e ocidental’, por essa ordem, quando, no passado, era ‘ocidental, europeia e alemã’. A mudança na sequência desses três factores identitários, que define o sentido da ‘normalização’ alemã, tem consequências para a evolução da Europa, mas não significa o regresso das fúrias totalitárias, nem exprime uma pulsão hegemónica da potência central”, sintetiza Carlos Gaspar, num artigo publicado no jornal Público.

A actual geração de políticos alemães não tem qualquer razão emocional para acatar instituições supranacionais ou para subordinar as suas opiniões à França e à Europa. Dos actuais 662 membros do Bundestag, apenas 38 tinham assento parlamentar antes de 1989. Em breves palavras: a política externa alemã actual já não é enformada pelas poderosas memórias colectivas, como o foi no período pós-guerra, o que não significa contudo uma sublimação do passado.

Quando se discute “a Alemanha” convém entender a Alemanha de 2012: o país está exposto a um processo de reinvenção, interna e externamente, não se devendo falar de uma entidade abstracta e cair em generalizações simplistas.

Num dos mais interessantes ensaios recentes sobre a reinvenção alemã, “Como é que a Europa pode obter a Alemanha de que precisa”, Ulrike Guérot e Mark Leonard sublinham o óbvio: para ultrapassar o seu desencanto europeu, a Alemanha precisa do apoio dos seus parceiros comunitários. Precisa que estes ponham a casa em ordem em matéria de contas públicas – só desta forma se poderá convencer os contribuintes alemães de que não estão a ser assaltados descaradamente – e que os outros grandes países dos 27 façam um grande esforço eles próprios para serem mais europeus nas suas escolhas.

* Texto que escrevi em  para XXI, Ter Opinião

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