Chinua Achebe: um homem popular*

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É simultaneamente um das vozes mais fortes e subtis de África. Chamar-lhe escritor nigeriano é muito pouco: Chinua Achebe é o fundador da literatura africana pós-colonial e continua a ser o autor africano mais traduzido em todo o mundo.

Na prisão Nelson Mandela lia-o e por momentos esquecia a clausura e o apartheid, “na sua companhia os muros da prisão caíam”. Madiba disse que ele “trouxe África ao resto do mundo”. Num dos seus ensaios Achebe citou um provérbio africano “até que os leões comecem a produzir os seus historiadores, a história da caça irá apenas glorificar o caçador”. A literatura de Achebe conta a história na perspectiva do leão. Fá-lo nessa  obra seminal da literatura africana moderna Things Fall Apart (Quando tudo  se desmorona, publicado em Portugal em 2008), escrito em 1958, quando Chinua Achebe tinha apenas 28 anos. Este foi o primeiro romance africano a conquistar o respeito da crítica literária dentro e fora do continente. Daí em diante África passou a ser uma ficção africana e não apenas uma ficção europeia.

Na sua passagem por Frankfurt, em 2002, altura em que recebeu o Prémio da Paz dos Livreiros alemães, Achebe explicava esta necessidade de uma voz africana, de um olhar africano sobre a sua cultura, de desmontar o mito hegeliano de África como um continente sem história e sem cultura. “À medida que nos tornamos mais velhos e começamos a ler entre as linhas, percebemos que os personagens inumanos, apresentados como selvagens, somos nós, está ver? Nessa altura nós percebemos que nós não somos selvagens e que essa essas representações são falsas “.

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O seu maior romance Things Fall Apart,  inicialmente recusado por editora atrás de editora, acabaria por se tornar num dos maiores livros do século XX, vendendo mais de dez milhões de exemplares e sendo  traduzido em meia centena de línguas.

Quando tudo se desmorona é inspirado  num  verso de William Yeats, “things fall apart; the centre cannot hold”. Achebe pegou no verso de Yeats e transformou-o no relato da vida do guerreiro Okonkwo, que vê o seu mundo tradicional desmoronar-se com a chegada dos primeiros missionários britânicos “pacificadores de indígenas”, durante o final do século XIX. É um requiem pelo coração do continente negro que Chinua Achebe  nega  ser o coração das trevas (d)escrito por Joseph Conrad no romance homónimo.

“África são pessoas, África não são problemas. A não ser que se comece por aqui contar-se-à a história sempre de forma errada. Tem de se aceitar a humanidade disto, isso é incondicional. Mesmo grandes pessoas como Albert Schweizer, que fizeram muito por África diziam: “África é minha irmã, mas a minha irmã pequena”.

O Comité Nobel cometeu a tremenda injustiça de nunca ter premiado a luta do escritor contra os estereótipos ocidentais. Pequena correção a esta injustiça foi a atribuição do prestigiado Man Booker International Prize em  2007.

Achebe nasceu a 16 Novembro de 1930, em Ogidi , na Nigéria e cresceu entre culturas: a nativa dos Ibo  e a britânica. E entre duas fés, a tradicional e o cristianismo. Leitor ávido desde menino ganhou a alcunha de “Dicionário”. Depois da Faculdade trabalhou na rádio nigeriana NBC e mais tarde mudar-se-ia para Londres onde trabalharia na BBC. Na sequência de um acidente de automóvel, perto de  Lagos, em 1990, que o deixaria parcialmente paralisado, fixou residência  nos Estados Unidos, onde seria professor universitário. Publicou novelas, ensaios, romances e literatura infantil. O seu último livro, ” As Antilhas de Savannah”, data de 1987.

*A Man of the People (1966) é o quarto livro da tetralogia de Achebe. Publicado poucos dias antes do primeiro golpe de estado militar na Nigéria (janeiro de 1966), é um romance cujo enredo evolui culminando também num golpe militar. Trata-se de umacoincidência interessante, mas não difícil de entender, pois o romance é o resultado do trabalho de um escritor empenhado em observar a realidade que o cerca.

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