Maputo foi assim

Vista do meu quarto de hotel. A Catedral de Maputo.HFG 2013
Vista do meu quarto de hotel. A Catedral de Maputo.HFG 2013

Com os dias a fecharem-se em fade out abrupto, o tempo tem-me escasseado, mas como quero cumprir uma promessa, faço um retrato em traços largos, impressões subjectivas, da semana que passei em Maputo.

 1. A minha geografia são as pessoas é por isso sempre bom voltar e reencontrar pessoas por quem se tem carinho, que se admiram. O que me trouxe à margem do Índico foi a continuação de um trabalho que tenho vindo a desenvolver com rádios comunitárias independentes em várias províncias moçambicanas (Quelimane, Pemba, Lichinga, Nacala, Tete, Nampula). Como escreve o Mia Couto, “o que faz andar a estrada? É o sonho. Enquanto a gente sonhar a estrada permanecerá viva. É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro.”

 Não é fácil ser-se jornalista em Moçambique – este workshop teve a peculiaridade de ter em sala um membro do Comité Central da Frelimo – há pressões políticas, económicas, escassez de meios e um quotidiano duríssimo. E do outro lado do espelho há profissionais enormes, quase todos ligados à Igreja Católica, que com o pouco que têm lutam por uma sociedade mais justa e democrática, pela reconciliação nacional. Mesmo que os emissores sejam soldados com castanha de caju (a castanha antes de ser torrada pode ser usada como uma espécie de cola) em vez de solda comum, haja meninos órfãos a fazer de locutores, e os gravadores de som sejam analógicos. “Esta rádio é uma consciência. Temos de ouvir o que esses cristãos dizem”, comentava um imã a propósito da Rádio Encontro de Nampula (uma rádio católica cujo coordenador é um jovem muçulmano). Não encontro melhor definição (para todas elas).

É díficil resistir. HFG 2013
É díficil resistir. HFG 2013

 2. Acredito que as palavras mudam o mundo, que a felicidade é uma colecção de instantes suspensos. A blogoesfera tem hoje o papel que os cafés tiveram em tempos longínquos: trocam-se ideias, argumentos, informações, momentos bem-dispostos, outros nem tanto. Conhecia o Maschamba (uma porta aberta para Moçambique) há muito tempo e há muito queria conhecer as pessoas por detrás das teclas, o fio que vai compondo as missangas, esta viagem proporcionou-me esse encontro. Delicadíssimo o jpt convidou-me para jantar em sua casa e conhecer a AL (outra ilustre maschambeira). Sobre a ementa não vou escrever que não sou o Eça e teria dificuldade em lhe fazer justiça. A tertúlia foi agradabilíssima. Arrisco mesmo dizer que será inesquecível. Eu explico porquê. Tinha passado o final da tarde sintonizada na CNN à espera de redentor fumo branco no Vaticano. Sai do hotel ainda em Sede Vacante. A caminho da casa do jpt telefona-me o meu colega, ateu, entusiasmadíssimo: ” é branco, é branco”. Pedi-lhe para me enviar uma mensagem logo que se soubesse quem era o novo Papa. Seria já em casa do jpt, também ele ateu (perdoe-me a inconfidência), com o jantar na mesa e uma comoção mal contida, que veria os cortinados rubros a afastarem-se e o Papa Francisco a pedir a bênção dos fiéis para si. Esperança em bruto.

 3. Num tchopela, moto-táxi que não é para quem tenha nervos fracos e um nariz pouco sensível, o C., colega com quem já atravessei o mundo, homem generoso, de bem com a vida, diz-me que gostava de conseguir mostrar mais aquilo que sente, de dizer às pessoas que gosta delas e porque gosta delas. Falávamos de amigos, filhos e conhecidos de quem gostamos.

Fiquei a pensar nas palavras dele, nesta dificuldade, que não é só masculina, de abraçar espontaneamente alguém, de elogiar, de mostrar que estamos felizes com e por ela. Não será essa a verdadeira transgressão? Tentar transformar em algo belo os dias zangados*?

 Será possível viver sem o leve desespero do nunca-mais-se olhar-nos-olhos-outra-vez que certos abraços contêm? Ou a eterna insegurança “alguma vez te abracei como merecias?”. À despedida de Maputo abracei os meus formandos um por um. Por eles, por mim. E até abracei o C. .“Renda-se como eu me rendi” diria a Clarice Lispector.

Um exercício complexo, o de fechar a mala. HFG 2013
Um exercício complexo, o de fechar a mala. HFG 2013

4. Li 5 livros numa semana. Life is so fair.

5. Olho para a agenda e vejo a próxima partida  ao dobrar dos dias. Este está-se a tornar um blog de “até jás”.

O doce regresso a casa.HFG 2013
O doce regresso a casa.HFG 2013
Anúncios

6 thoughts on “Maputo foi assim

  1. Helena, como a invejo, nao por ter ficado no hotel Rovuma Pestana, mas porque visitou a cidade que deixei no dia 1 de Marco de 2012 depois de um ano de trabalho. Essa cidade onde as pessoas ainda sao humanas e sorriem apesar das dificuldades. Onde a comida tem sabor, e onde temos a sensacao de estarmos em nossa casa ainda que sejamos visitas.

    Gostar

    1. Maputo é uma cidade viva. Sente-se no ar que a economia está a crescer. A cidade está cheia de portugueses e outros estrangeiros à procura de oportunidades. Claro que continua a ter muitos problemas das cidades africanas: lixo, prostituição infantil, pobreza extrema, alguma criminalidade. Mas apesar de tudo é uma cidade encantadora (arquitectonicamente e graças aos moçambicanos ).

      Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s